Revista Veja
Software institucional do país favorece o
rentismo e cria paradoxo
O Brasil vive um paradoxo. Em 2025, consolidou-se como o terceiro maior receptor mundial de investimento estrangeiro direto, com 77 bilhões de dólares, alta de 23% sobre o ano anterior. A participação estrangeira na B3 alcançou níveis recordes. À primeira vista, são indicadores de uma economia atrativa. Ao mesmo tempo, mais de duzentas empresas levaram parte de sua produção para o Paraguai — 70% das maquiladoras paraguaias pertencem a brasileiros. Têxteis, calçados, autopeças, metalurgia, plásticos, eletrônicos e, mais recentemente, a agroindústria passaram a produzir do outro lado da fronteira. O investimento produtivo sai; os produtos retornam.
São dois efeitos do mesmo ambiente
institucional. O capital financeiro é atraído pelos juros reais elevados e por
ativos únicos, como petróleo, mineração, agronegócio e um grande mercado
consumidor. Já a indústria, que pode escolher onde produzir, busca países com
menor custo operacional. O diferencial paraguaio é conhecido: tributação
simples, estabilidade regulatória, energia barata, encargos trabalhistas
significativamente menores e incentivos garantidos por longo prazo. A pergunta
correta, portanto, não é por que tantas empresas estão migrando, mas por que
tantas ainda seguem no Brasil.
“A pergunta não é por que empresas estão
migrando para o Paraguai, mas por que tantas seguem no Brasil”
A resposta está em um software institucional
construído em décadas. Não se trata de conspiração, mas da combinação de
políticas que favorecem o rentismo e desestimulam o investimento produtivo. O
primeiro componente são juros reais persistentemente elevados, consequência da
fragilidade fiscal. Emprestar ao governo tornou-se mais rentável e menos
arriscado do que investir em produção. O segundo é a complexidade tributária.
Embora necessária, a reforma do consumo conviverá até 2033 com dois sistemas
simultâneos, prolongando a incerteza justamente quando países concorrentes
oferecem regras simples e estáveis. O terceiro é a insegurança jurídica. O
Brasil possui mais de 80 milhões de ações judiciais. Todo esforço da Justiça em
criar precedentes e até mesmo mudanças modernizadoras de legislação é, em
grande parte, ignorado nas instâncias superiores. Além do mais, o investidor é
vítima de mudanças frequentes de interpretação tributária, decisões judiciais
oscilantes e instabilidade regulatória.
Somam-se a isso encargos trabalhistas
elevados, energia cara para um país de vocação hidrelétrica, infraestrutura
logística deficiente e um Judiciário lento. Quando esses fatores operam em
conjunto, o resultado é um ambiente em que o investidor financeiro prospera, o
exportador de commodities mantém competitividade, mas o empreendedor industrial
conclui que produzir no Paraguai tornou-se mais racional que investir no
Brasil.
A indústria de pequeno e médio porte sempre
foi um dos pilares da classe média produtiva. Quando ela migra, encolhe também
a base social que sustenta a estabilidade democrática, ampliando a distância
entre uma economia cada vez mais financeirizada e uma sociedade mais dependente
do Estado. A frase do senador Flávio Bolsonaro, de que o Brasil teria “o melhor
ministro da Fazenda do Paraguai”, é injusta com Fernando
Haddad, mas aponta para um problema estrutural. O desafio não pertence a um
governo. É resultado de um modelo institucional que atravessa diferentes
gestões. Ainda há tempo para reescrever esse software.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

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