CartaCapital
O grande amigo de Lula tornou-se um problemão
e os votos perdidos valerão muito no segundo turno das eleições
O abraço de urso é muito forte e a força nele depositada pode ser interpretada como um gesto de afeto extremo. No uso comum, todavia, a expressão pode ser traduzida como uma amizade que sufoca, machuca e pode destruir o amigo desavisado. Nas lutas corpo a corpo, significa uma posição de controle ou domínio sobre o oponente. Qualquer que seja o uso que se dê ao termo, ou da conclusão das investigações da Polícia Federal sobre o suposto envolvimento do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, com o escândalo Master, o fato é que a amizade de mais de 40 anos entre ele e o presidente da República envolve Lula em um abraço de urso. Mesmo se, no futuro, Wagner vier a ser inocentado das graves acusações, hoje o senador baiano tornou-se um problemão. E é agora, não num futuro em que eventualmente o senador seja inocentado, que está em jogo a disputa de um último mandato presidencial para Lula, cuja vitória é fundamental para bloquear o acesso da extrema-direita ao poder.
O senador baiano tornou-se um incômodo
político para Lula e o PT, em todo o Brasil. Mas a repercussão do escândalo
Wagner no ânimo do eleitorado do Nordeste em geral, e da Bahia em particular –
que, nas últimas duas décadas, sustentaram três eleições de Lula e duas de Dilma
Rousseff à Presidência – é uma novela à parte. É um risco ainda a ser avaliado.
O Nordeste, região historicamente mais
desassistida do País, sofreu uma guinada a partir do primeiro governo Lula. As
políticas de distribuição de renda caíram na região mais pobre como uma dádiva.
Pela primeira vez as famílias saíam da miséria, consumiam, iam à escola,
usufruíam dos benefícios da agricultura familiar e tornavam seus antes secos
minifúndios em terras produtivas, e até investiam em produtividade. A soma de
todos os benefícios permitiu à economia nordestina, num período de 14 anos de
governos petistas (oito de Lula e seis de Dilma Rousseff), crescer a índices
chineses. Foi uma mudança grande demais para ser esquecida nas eleições. A
região produziu, todavia, outro fenômeno. Enquanto elegia governadores e
presidentes da República do partido, continuou a despejar no Congresso uma
bancada de parlamentares saída da política tradicional. Nas eleições
majoritárias (presidente, governador e senador), a esquerda ganhou guarida. A
direita preservou poder nas casas legislativas.
A região foi fundamental para a vitória de
Lula em 2022. É a segunda em maior número de votos, com perto de 42 milhões de
eleitores, atrás apenas do Sudeste. Entre os estados nordestinos, é a Bahia,
sem dúvida, o que mais despejou votos nos candidatos a presidente pelo PT. Os
votantes baianos representam quase 27% dos eleitores do Nordeste. E destes
quase 11,3 milhões de votos, ou 72,12%, foram destinados a Lula nas eleições
passadas, numa disputa nacional decidida por pouco mais de 2 milhões de
escrutínios.
A exposição do PT num escândalo que não sabia seu, o do Banco Master, pega
também de jeito a estratégia definida pelo partido para as eleições, de
vincular, de fato, a campanha nacional às eleições parlamentares para a Câmara
e para o Senado. Isso nunca foi feito efetivamente depois do primeiro mandato
de Lula. A ilusão de um “centro político” negociável, capaz de compor com um
governo de esquerda em troca de favores palatáveis, acabou depois da ascensão
da extrema-direita e da descoberta, pelo Centrão, de que é possível governar
sem eleger um presidente da República.
Ser atingido pelas notícias de investigação
de envolvimento de Wagner no caso Master é um grande golpe para o PT, para Lula
e para o próprio governador baiano. Lula perde votos e a polarização extrema
ainda é um dado, e as duas últimas eleições presidenciais foram definidas por
pequena margem de votos. O PT perde um candidato ao Senado praticamente eleito.
E Wagner perde não apenas a chance de mais um mandato, mas coloca em risco o
capital político acumulado nas últimas quatro décadas.
O PT e Lula estão diante de uma situação
difícil. O terço que tem mais quatro anos de mandato, eleito no clima da
polarização extremada de 2022, é terrivelmente bolsonarista. A bancada da
direita começa o processo eleitoral com 22 senadores sentados no plenário do
Senado, todos eleitos quatro anos atrás. Dos nove senadores petistas atuais,
três concluirão o mandato em 2026. Dos nove senadores do MDB, oito terminam
agora. Dos sete do PSB, só um permanecerá. O PSD, que até hoje não decidiu se é
aliado do governo, tem 14 senadores, e oito terminarão seus mandatos neste
ano.
Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.

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