sexta-feira, 12 de junho de 2026

A festa junina de Alcolumbre, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Cercado por investigações, presidente do Senado aponta mira contra os cofres públicos

Em clima de festa junina, Davi Alcolumbre acendeu o pavio e tapou os ouvidos. O presidente do Senado articulou a aprovação de três pautas-bombas na quarta-feira. Somadas, elas podem custar mais de R$ 200 bilhões aos cofres públicos.

No plenário, os senadores aprovaram a criação de mais uma linha de crédito rural. O pretexto foi socorrer produtores prejudicados por conflitos internacionais ou eventos climáticos extremos.

Segundo cálculos da Fazenda, o agrado aos ruralistas deve custar R$ 140 bilhões em dez anos. Um de seus principais defensores foi o governador gaúcho Eduardo Leite, que ensaiou concorrer ao Planalto como expoente do liberalismo.

A generosidade também se espalhou pelo corredor das comissões. A de Assuntos Sociais aprovou aumento de 275% no piso de médicos e cirurgiões-dentistas. A de Constituição e Justiça fez avançar proposta que reduz a idade de aposentadoria e concede benefício integral a agentes de saúde e combate a endemias. O impacto previsto é de R$ 30 bilhões para a União, sem contar os gastos extras de estados e municípios.

É necessário valorizar o serviço público, mas os senadores não parecem movidos apenas pelo senso de justiça. Pesaram o ano eleitoral, que costuma inspirar bondades com dinheiro público, e a cruzada de Alcolumbre contra o Planalto. O presidente do Senado havia insinuado um armistício após derrubar a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Ignorado por Lula, resolveu voltar ao ataque.

Alcolumbre está nervoso. Sabe que pode ser atingido pela delação do empresário Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, envolvido num esquema de fraudes em combustíveis. E teme o avanço das investigações do caso Master, que engoliu R$ 400 milhões de aposentados e pensionistas do Amapá.

Sob pressão, o senador parece se inspirar no exemplo de Eduardo Cunha, que tentou usar as pautas-bombas para escapar da polícia na década passada. Para o ex-deputado, a festa não acabou bem.

 

 

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