O Globo
Cercado por investigações, presidente do
Senado aponta mira contra os cofres públicos
Em clima de festa junina, Davi Alcolumbre
acendeu o pavio e tapou os ouvidos. O presidente do Senado articulou a
aprovação de três pautas-bombas na quarta-feira. Somadas, elas podem custar
mais de R$ 200 bilhões aos cofres públicos.
No plenário, os senadores aprovaram a criação
de mais uma linha de crédito rural. O pretexto foi socorrer produtores
prejudicados por conflitos internacionais ou eventos climáticos extremos.
Segundo cálculos da Fazenda, o agrado aos ruralistas deve custar R$ 140 bilhões em dez anos. Um de seus principais defensores foi o governador gaúcho Eduardo Leite, que ensaiou concorrer ao Planalto como expoente do liberalismo.
A generosidade também se espalhou pelo
corredor das comissões. A de Assuntos Sociais aprovou aumento de 275% no piso
de médicos e cirurgiões-dentistas. A de Constituição e Justiça fez avançar
proposta que reduz a idade de aposentadoria e concede benefício integral a
agentes de saúde e combate a endemias. O impacto previsto é de R$ 30 bilhões
para a União, sem contar os gastos extras de estados e municípios.
É necessário valorizar o serviço público, mas
os senadores não parecem movidos apenas pelo senso de justiça. Pesaram o ano
eleitoral, que costuma inspirar bondades com dinheiro público, e a cruzada de
Alcolumbre contra o Planalto. O presidente do Senado havia insinuado um
armistício após derrubar a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal
Federal. Ignorado por Lula, resolveu voltar ao ataque.
Alcolumbre está nervoso. Sabe que pode ser
atingido pela delação do empresário Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto
Louco, envolvido num esquema de fraudes em combustíveis. E teme o avanço das
investigações do caso Master, que engoliu R$ 400 milhões de aposentados e
pensionistas do Amapá.
Sob pressão, o senador parece se inspirar no
exemplo de Eduardo Cunha, que tentou usar as pautas-bombas para escapar da
polícia na década passada. Para o ex-deputado, a festa não acabou bem.

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