quinta-feira, 11 de junho de 2026

A inovação além das metrópoles, por Paulo Rocha*

Em ano eleitoral, o Brasil volta a discutir crescimento, emprego e produtividade. Fala-se também em reduzir desigualdades regionais. Mas raramente se pergunta onde o país está construindo sua economia do futuro.

Quando o tema é inovação, o debate público se concentra nos mesmos endereços: Faria Lima, Paulista, grandes polos do Sudeste e do Sul. Como se a tecnologia brasileira tivesse território limitado.

O país conta hoje com 113 parques tecnológicos distribuídos nas cinco regiões. Reúnem cerca de 2,7 mil empresas, com faturamento anual superior a R$ 15 bilhões e aproximadamente 75 mil empregos diretos, segundo a Anprotec e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. São três décadas de políticas públicas e cerca de R$ 7 bilhões investidos. Trata-se de infraestrutura econômica instalada.

Apesar disso, a maior parte dos investimentos permanece nas regiões metropolitanas. Dados do IBGE mostram que o PIB industrial e os serviços intensivos em tecnologia seguem concentrados. A Pesquisa de Inovação (Pintec) confirma que empresas inovadoras se localizam onde já há maior densidade econômica. O discurso menciona descentralização. A prática reforça a concentração.

O Ipea, há anos, aponta as desigualdades regionais como um entrave estrutural ao desenvolvimento. Produtividade e renda seguem distribuídas de forma desigual. Estudos indicam que ambientes locais de inovação, quando conectados a universidades e cadeias produtivas regionais, geram efeitos sobre emprego e renda. Desenvolvimento territorial é política econômica.

O interior não é periferia tecnológica. Em muitos casos, a inovação nasce próxima de problemas concretos: logística, agroindústria, energia, saneamento, saúde, eficiência industrial. São demandas que exigem soluções aplicadas e integração com as cadeias produtivas.

Entre 2017 e 2023, pedidos de patentes vinculados a empresas instaladas em parques tecnológicos cresceram mais de 100%. O dado não altera a estrutura concentrada da economia, mas indica um movimento de interiorização da inovação.

Em municípios médios, esses ecossistemas ampliam massa salarial, arrecadação e diversificação produtiva. Também contribuem para reter talentos. Jovens qualificados encontram oportunidades fora dos grandes centros, reduzindo a pressão migratória e ampliando a coesão territorial.

A OCDE destaca que sistemas de inovação distribuídos regionalmente aumentam a resiliência econômica. Alemanha, Coreia do Sul e Estados Unidos consolidaram polos tecnológicos fora das principais metrópoles. O objetivo não é opor capital e interior, mas estruturar um sistema nacional capaz de difundir capacidades produtivas.

O debate eleitoral inclui reindustrialização, economia verde, inteligência artificial e bioeconomia. Raramente especifica onde essas agendas serão implementadas. Sem territorialização, propostas permanecem genéricas. Ignorar a hinterlândia de inovação mantém o modelo concentrador que o país afirma querer superar.

Porque, no fim das contas, a verdadeira escolha política não é entre inovação e atraso. É entre concentração e desenvolvimento. E o país que insiste em inovar apenas onde sempre inovou continuará crescendo como sempre cresceu: de forma desigual.

*Paulo R. C. Rocha é gestor, pesquisador em políticas educacionais e vice-presidente do Biopark.

 

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