O Globo
O Missão critica o sistema, mas nasceu dentro
dele. No início, o PT também
Jair Bolsonaro tentou e não conseguiu criar
seu próprio partido. Semelhante ao que as tendências de esquerda (Convergência
etc.) fizeram no PT, teve de fazer um “entrismo” no PL e conviver sob o teto de
Valdemar Costa Neto. A turma do MBL chegou lá em novembro passado e pôs na
praça o Missão, a mais nova startup da direita disponível na prateleira
partidária.
— Somos mais capazes que ele — diz sobre
Bolsonaro Renan Santos, presidente do Missão e candidato à Presidência. — Ele é
um homem fraco e um traidor. É um mérito que respeitamos.
O leitor certamente já ouviu falar de Romeu
Zema e de Ronaldo Caiado, personagens da política regional. Mas dificilmente
ouviu algo sobre Renan Santos. Exceto que as pesquisas eleitorais o colocam em
empate técnico com os dois ex-governadores. Na Atlas/Bloomberg, a pontuação do
novato Missão tem humilhado máquinas poderosas do PSD de Kassab e do volúvel
Novo.
— O Novo é o PCdoB do PL — alfineta Renan.
E não sem razão: o candidato do partido, Romeu Zema, recebe puxões de orelha em público sempre que critica Flávio Bolsonaro.
O nascimento do Missão se dá à luz do
escândalo do Banco Master. Ocupa o espaço dinamitado na direita. Com suas
mesadas e rodadas de uísque, o caso Master exalou a necrose do universo
político. Os bolsonaristas, desde sempre, estiveram na vizinhança de casos de
corrupção: das rachadinhas à compra de imóveis com dinheiro vivo e
funcionários-fantasmas — um prontuário parrudo.
Mesmo com tantos esqueletos, o eleitorado
parece tapar o nariz para as malfeitorias. Como disse Zema: “Gambá cheira
gambá”. Os índices de Flávio escondem um escândalo moral: para perdoar crimes,
se dizem antipetistas. Reconheço: uma parte é ideológica; outra veste a
carapuça do personagem Macunaíma, aquele sem nenhum caráter de que falava Mário
de Andrade.
O acordão da direita em torno das corrupções
mostra o estrago feito pela família Bolsonaro. É nesse espaço que caminha a
candidatura de Renan Santos. Além de marcar em torno de 3% a 4% nos diversos
institutos, traz embutido outro número que atesta o colapso dos partidos de
direita: pontua cerca de 24% entre eleitores de 16 a 24 anos e 11% entre 25 e
35 anos.
— O PSOL é um partido; o PT corrupto é outro
partido — tem dito Renan para marcar a diferença. — O restante são legendas.
Essa direita é um bando de puxa-sacos do Bolsonaro.
Ator novo na disputa partidária, o discurso
do Missão repete o mantra de ser antissistema. Os alvos são o PT no governo e
toda a direita abraçada ao bolsonarismo. Na oposição, ironiza que a única
plataforma dos candidatos seja o perdão a Bolsonaro. Daí a análise de que as
agremiações políticas atuais só encantem os mais velhos. O Missão é um grito
geracional dos jovens, segundo o candidato.
Isso é interessante. O partido é um spin-off
partidário do MBL, movimento que ajudou a engrossar as manifestações de rua
que, a partir de 2013, levaram ao impeachment de Dilma Rousseff. Nasceu nas
redes sociais conectado a uma juventude desconectada da política institucional.
Em momentos diversos, esteve próximo a João Doria e a Bolsonaro.
O partido sustenta-se no universo digital,
nos cursos de formação, numa revista e na plataforma inserida em seu “Livro
amarelo”. Não difere em atuação de agremiações da nova direita europeia, como o
Vox espanhol. Não joga para o momento, mas para o futuro. Embora a direita
radical tenha ojeriza a Antonio Gramsci, o Missão surge ancorado em seus
conceitos: disputar a hegemonia cultural. Guerrear contra o que parece natural
— viver com medo do crime organizado, nos dias de hoje.
Não por acaso, a principal plataforma do
Missão é a proposta radical de guerra ao crime. Defende o uso do Direito Penal
do Inimigo. Aquele que desrespeita reiteradamente as leis é inimigo declarado.
Desde que seja considerado inimigo, deixa de estar na mesma cobertura legal, já
que abandonou o pacto social. Deve, assim, ter julgamento imediato, diferente
do que reza o Código Penal. O novo arcabouço não visa à ressocialização, mas à
punição. A periculosidade do criminoso determina a rapidez de sua retirada da
sociedade. Vem daí a defesa do presidente de El Salvador, Nayib Bukele,
criticado por suas constantes violações de direitos humanos.
À direita no espectro, o Missão sabe
escandalizar em busca de engajamento. Coloca-se contra a ideia de
criminalização da misoginia no ambiente digital. Em defesa das mulheres,
prefere aumentar a pena do pai que não paga pensão e se ausenta da educação do
filho. Desamparado é mão de obra para o crime.
O Missão critica o sistema, mas nasceu dentro
dele. No início, o PT também se disse puro. Até o mensalão.

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