O Globo
A alta disponibilidade de imagens de
violência urbana na memória faz com que o eleitorado reaja à possibilidade do
perigo com urgência máxima
No último dia 28, foi publicada uma pesquisa
do Instituto Ideia em parceria com o Canal Meio apontando que o atual
presidente aparece com 46,5% das intenções de voto, ante 41,4% de Flávio
Bolsonaro. O cenário se modificou substancialmente, uma vez que o senador
tinha 45,3%, ante 44,7% de Lula,
em 6 de maio.
Entretanto o quadro possui outros ingredientes importantes para ler o que se passa. Mesmo com essa diferença de 5,1 pontos percentuais, o governo é desaprovado por 51,4% dos eleitores, enquanto outros 51,4% afirmam que ele não merece mais um mandato.
Tudo sugere que a mudança foi resultado do
vazamento do áudio enviado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, diante do abalo das
bases da direita até o momento. As intenções de voto para Flávio despencaram
15,7 pontos entre jovens de 16 a 24 anos. O mesmo é identificado na parcela da
população de renda maior do que cinco salários mínimos: ele caiu 18,9 pontos.
Por fim, também ocorreu queda entre os eleitores de centro-direita, de 18
pontos.
Apesar disso, o prejuízo pode não ser tão grande
assim no longo prazo, porque, até agora, não existe alternativa disparando nas
pesquisas e, mais importante que isso, a força do antipetismo é muito grande,
com 46,7% afirmando que não votam em Lula de jeito algum.
Desse modo, o eleitorado que se afastou do
senador não foi para a esquerda e tende a: (i) se abster; (ii) votar nulo; ou
(iii) voltar para Flávio no segundo turno por rejeição histórica ao PT. Além
disso, 45% dos brasileiros acreditam que a Copa do Mundo fará a opinião pública
esquecer o escândalo.
Significa dizer que as abstenções e os votos
inválidos serão o fator decisivo em 2026. Cruzando os dados de maior indecisão,
é possível desenhar o perfil do eleitor mais propenso a faltar às urnas: idoso
ou sem religião, morador do Centro-Oeste, de classe média, que se declara de
“centro” ou “sem posição política”.
Mas, como no Brasil a cada dia temos uma
surpresa diferente, no dia 29 os Estados Unidos incluíram CV e PCC na lista de
organizações terroristas estrangeiras, logo depois de uma visita de Flávio à
Casa Branca. Funciona como grande vitória da direita, que pode recuperar a
perda sofrida em virtude do caso Master. Isso porque a segurança pública é a
maior preocupação da população, cuja maioria esmagadora (73%) entende que as
facções devem ser consideradas terroristas.
A neurociência ensina que o cérebro humano é
biologicamente programado para priorizar ameaças urgentes. A alta
disponibilidade na memória de imagens dramáticas de violência urbana
faz com que o eleitorado reaja à possibilidade do perigo com urgência máxima.
Isso pode ajudar na recuperação da imagem de Flávio.
Em contrapartida, Lula poderia tentar
conduzir esse sentimento para o orgulho e o medo da perda da soberania
nacional, apontando para os abusos cometidos por Trump nos últimos tempos.
De todo modo, tudo se resumirá a conseguir
tirar o eleitor de casa e escolher alguém. O objetivo é atingir o povo por meio
da aversão à perda, para que ele se mobilize a evitar aquilo que mais teme.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.