segunda-feira, 1 de junho de 2026

Eleições do medo, por Irapuã Santana

O Globo

A alta disponibilidade de imagens de violência urbana na memória faz com que o eleitorado reaja à possibilidade do perigo com urgência máxima

No último dia 28, foi publicada uma pesquisa do Instituto Ideia em parceria com o Canal Meio apontando que o atual presidente aparece com 46,5% das intenções de voto, ante 41,4% de Flávio Bolsonaro. O cenário se modificou substancialmente, uma vez que o senador tinha 45,3%, ante 44,7% de Lula, em 6 de maio.

Entretanto o quadro possui outros ingredientes importantes para ler o que se passa. Mesmo com essa diferença de 5,1 pontos percentuais, o governo é desaprovado por 51,4% dos eleitores, enquanto outros 51,4% afirmam que ele não merece mais um mandato.

Tudo sugere que a mudança foi resultado do vazamento do áudio enviado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, diante do abalo das bases da direita até o momento. As intenções de voto para Flávio despencaram 15,7 pontos entre jovens de 16 a 24 anos. O mesmo é identificado na parcela da população de renda maior do que cinco salários mínimos: ele caiu 18,9 pontos. Por fim, também ocorreu queda entre os eleitores de centro-direita, de 18 pontos.

Apesar disso, o prejuízo pode não ser tão grande assim no longo prazo, porque, até agora, não existe alternativa disparando nas pesquisas e, mais importante que isso, a força do antipetismo é muito grande, com 46,7% afirmando que não votam em Lula de jeito algum.

Desse modo, o eleitorado que se afastou do senador não foi para a esquerda e tende a: (i) se abster; (ii) votar nulo; ou (iii) voltar para Flávio no segundo turno por rejeição histórica ao PT. Além disso, 45% dos brasileiros acreditam que a Copa do Mundo fará a opinião pública esquecer o escândalo.

Significa dizer que as abstenções e os votos inválidos serão o fator decisivo em 2026. Cruzando os dados de maior indecisão, é possível desenhar o perfil do eleitor mais propenso a faltar às urnas: idoso ou sem religião, morador do Centro-Oeste, de classe média, que se declara de “centro” ou “sem posição política”.

Mas, como no Brasil a cada dia temos uma surpresa diferente, no dia 29 os Estados Unidos incluíram CV e PCC na lista de organizações terroristas estrangeiras, logo depois de uma visita de Flávio à Casa Branca. Funciona como grande vitória da direita, que pode recuperar a perda sofrida em virtude do caso Master. Isso porque a segurança pública é a maior preocupação da população, cuja maioria esmagadora (73%) entende que as facções devem ser consideradas terroristas.

A neurociência ensina que o cérebro humano é biologicamente programado para priorizar ameaças urgentes. A alta disponibilidade na memória de imagens dramáticas de violência urbana faz com que o eleitorado reaja à possibilidade do perigo com urgência máxima. Isso pode ajudar na recuperação da imagem de Flávio.

Em contrapartida, Lula poderia tentar conduzir esse sentimento para o orgulho e o medo da perda da soberania nacional, apontando para os abusos cometidos por Trump nos últimos tempos.

De todo modo, tudo se resumirá a conseguir tirar o eleitor de casa e escolher alguém. O objetivo é atingir o povo por meio da aversão à perda, para que ele se mobilize a evitar aquilo que mais teme.

 

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