Folha de S. Paulo
Há temas que estão em alta e que direitistas
souberam trabalhar melhor do que a esquerda
Movimento é pendular e, no futuro, veremos
outras 'ondas vermelhas'
Se o padrão ainda não era claro, agora,
depois Colômbia e
provavelmente o Peru elegerem líderes de direita, ele deve estar: uma onda de
direita está varrendo a América do
Sul. Quando Lula iniciou
seu mandato, Argentina, Colômbia, Peru, Bolívia e Chile tinham líderes de
esquerda. Hoje, ou já têm líderes de direita ou acabaram de os eleger.
É um movimento pendular. No futuro, veremos outras "ondas vermelhas". Por enquanto, o trabalho é tentar entender o que está por trás desse movimento à direita. Segurança, corrupção, economia, migração; temas que estão em alta e que a direita soube trabalhar melhor do que a esquerda.
Hoje, o indivíduo —o cidadão comum— está em
alta. Este mesmo que ganhou espaço para se expressar com as redes sociais,
almeja poder crescer e atingir seu sucesso e exige responsabilização e punição
por crimes cometidos. Não aceita ver suas ideias e valores sendo
descartados em nome do
parecer de "especialistas" ou de uma elite cultural
mais esclarecida. As pessoas querem agência, e não serem reduzidas a um sintoma
dos processos sociais. E isso se alinha aos valores dos EUA, hoje mais
assertivos do que no passado.
O grande exemplo da esquerda antiamericana no
continente, a Venezuela —cujo
regime era incensado por intelectuais progressistas do mundo todo até outro
dia— produziu um desastre econômico, político e humanitário. Uma ditadura
brutal, corrupta e miserável, mesmo em posse das maiores reservas de petróleo
do mundo, que produziu fome e êxodo em massa. A esquerda ficou marcada como a
má gestão econômica, inflação, excesso de gasto, corrupção e insistência na
redistribuição de renda para países que ainda precisam crescer muito.
Já a direita tem um novo modelo para chamar
de seu: o El Salvador de
Bukele. Depois de anos de resignação frente ao flagelo da violência e do crime
organizado, um país mostra que é possível reduzir drasticamente o problema.
A América
Latina é a região mais violenta do mundo e o povo está farto.
Se governos democráticos e respeitadores dos direitos humanos não começarem a
mostrar resultados similares, vai ser muito difícil convencer os eleitores de
que esses valores valem mais do que a proteção da vida dos trabalhadores
honestos.
No Brasil, esses temas também castigam a esquerda. Ela
tem enorme dificuldade em defender algo básico como a prisão para um assassino
de 17 anos. O tema da corrupção também não lhe desce bem. O petrolão e
a necessidade posterior de defender Lula levou nossa esquerda em peso a
desqualificar a Operação Lava
Jato como se fosse um complô. E agora toda tentativa de combate
à corrupção é desmerecida.
A julgar pelas prioridades dos eleitores
brasileiros em 26 —segurança, combate à corrupção— o mesmo processo que
favoreceu a direita no resto do continente está em operação aqui. A grande
diferença para com os países aqui citados é Lula, que tem um vínculo com o
eleitorado de baixa renda, especialmente no Nordeste, que lhe garantiu a
vitória em 2022 e o mantém como favorito agora (ajudado, é claro, pelo pacote
de bondades de R$ 215 bilhões). Lula é maior do que a esquerda brasileira. Mas
2026 é sua última eleição. O que ela fará depois dele?

O caminho certo é o caminho do meio.
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