Correio Braziliense
Longe de querer justificar o erro de
imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em outros países, vejo que o
chamado país das liberdades tem promovido uma caçada de terror aos não
documentados
Nas últimas semanas, tive contato com duas histórias que me fizeram repensar como nós, enquanto humanidade, chegamos ao fundo do poço. Ambas deram origem a reels publicados no perfil do Correio Braziliense. A hondurenha Wendy Hernández foi presa quando se dirigia ao trabalho, na Flórida, e deportada para Honduras. O filho, de apenas 2 anos, ficou com o tio materno. Sozinho, sem a mãe, foi exposto a todo tipo de barbárie, incluindo queimaduras e abuso sexual. Ao ser detida, Wendy implorou para que o pequeno Orlin Josué fosse levado com ela. O ICE, a polícia da Imigração americana, não lhe deu ouvidos. O menino acabou morto.
A outra história envolve um garoto de 18
anos, filho de imigrantes mexicanos. Kevin González tratava um câncer agressivo
na cidade americana de Chicago. Os pais, Isidoro e Norma, tentaram atravessar
ilegalmente a fronteira para estar com o filho. Mas, foram presos no Arizona. O
casal ficou recluso em um centro de imigração durante 30 dias. Nesse intervalo,
Kevin, desenganado pelos médicos, retornou a Durango, no México. A família
começou uma campanha para sensibilizar os Estados Unidos a libertarem os pais
do jovem. Deportados, Isidoro e Norma conseguiram ter somente 24 horas ao lado
de Kevin. O garoto morreu nos braços dos pais.
Longe de querer justificar o erro de
imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em outros países, vejo que o
chamado país das liberdades tem promovido uma caçada de terror aos não
documentados. São exatamente eles que ajudam a movimentar a economia dos
Estados Unidos, ocupando postos de trabalho com mão de obra barata e, às vezes,
pouco qualificada. O ICE invade empresas, aborda estrangeiros nas ruas, entra
em igrejas. No caso de Wendy, parece não se importar em separar famílias.
Um levantamento do think tank Brookings
Institution revela que 145 mil crianças foram retiradas do convívio dos pais
durante as detenções de imigrantes ilegais — 36% delas sequer tinham 6 anos de
idade. Desse total, 22 mil ficaram sem a companhia de pai e mãe, depois que
ambos foram presos. A maioria das crianças com pelo menos um dos pais presos
pela Imigração é oriunda do México (54%). Guatemala e Honduras aparecem em
seguida, com 25%. Fico imaginando o trauma para esses pequenos. O que
dizer do trauma que carregarão pelo resto da vida? Isso quando não estão
expostas a perigos ou ao risco de morte, como ocorreu com Orlin Josué.
Os apelos dos amigos e familiares para que
Isidoro e Norma fossem libertados, a fim de que pudessem conviver com Kevin
pelo pouco tempo que lhe restava, parece não terem comovido as autoridades
americanas. Pensem em quantas histórias de dor, sofrimento, medo e solidão não
são tornadas públicas, não chegam à opinião pública... A política de tolerância
zero adotada pelo governo Donald Trump é condenada por ativistas dos direitos
humanos, mas também por especialistas em política americana. Trump sempre
classificou os imigrantes como criminosos e marginais. Coloca no mesmo balaio
de terroristas e traficantes aquelas pessoas que cometeram um erro em busca de
uma vida melhor.

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