Folha de S. Paulo
Em combate a corrupção, desmatamento,
discriminação de empresas de internet e pagamentos instantâneos, Washington faz
o mesmo
Apesar de alegar conflito de interesse do
Banco Central, Fed tenta implementar versão do Pix, mas sistema não decolou
O tarifaço
americano anunciado nesta terça-feira (2) é um monumento à hipocrisia
ao punir o Brasil por medidas que o próprio presidente Donald Trump põe
em prática em seu país. Em combate a corrupção, discriminação contra empresas
de internet, pagamentos
eletrônicos e redução do desmatamento, os EUA de Trump fazem o mesmo
que acusam o Brasil de fazer.
Ao justificar a tarifa de 25% contra o país,
o relatório do USTR (Escritório de Comércio da Casa Branca) conclui que o
Brasil não adota medidas suficientes para combater a corrupção e cita
preocupações da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico) sobre propinas pagas em outros países.
Ora, uma das primeiras ordens executivas anunciadas por Trump neste seu segundo mandato foi a suspensão da Lei de Práticas Estrangeiras de Corrupção, em 10 de fevereiro de 2025. Alegando que a lei gerava burocracia e custos excessivos para empresas americanas com atuação em outros países, Trump pausou por seis meses a aplicação da legislação e anulou a metade das investigações que estavam em curso.
Em junho do ano passado, anunciou novas
regras, mais brandas, para a aplicação da lei. A equipe na SEC (Comissão de
Valores Mobiliários) encarregada das investigações foi reduzida de 35 para 10
pessoas.
Segundo Richard Nephew, especialista em
combate a corrupção da Universidade Columbia, o número de condenações e multas
decorrentes de investigações seguindo a lei caiu significativamente em
comparação aos últimos dez anos.
"Em todas as dimensões mensuráveis ações
de fiscalização, quadro de pessoal, sanções, capacidade institucional e
engajamento internacional, os Estados
Unidos reduziram sua postura de combate à corrupção."
Outra justificativa para a imposição do
tarifaço, segundo o governo americano, é o fracasso no combate ao desmatamento
ilegal no Brasil.
A preocupação do USTR com o desmatamento
destoa da postura do governo Trump. Além de ter flexibilizado inúmeras regras
ambientais, o republicano está no estágio final do processo de anulação da
Regra Sem Estrada, que proíbe a construção de estradas e extração de madeira em
23 milhões de hectares de mata nos EUA. Inúmeras entidades ambientais
advertiram para o perigo de aumento no desmatamento e ameaça à fauna e à flora.
Além disso, em abril, o governo Trump fechou
57 das 77 estações de pesquisa do Serviço Florestal no país, que se dedicavam a
analisar impactos de mudanças climáticas e incêndios nas florestas.
As medidas vão em linha com uma ordem
executiva editada pelo presidente em março do ano passado que determinava
incentivos para aumentar em 25% a extração de madeira em florestas em terras
federais.
Outro motivo alegado pelo USTR para o
tarifaço são as ordens do Judiciário brasileiro para remoção de conteúdo e
multas contra empresas americanas de redes sociais. Segundo os EUA, essas
ordens podem "sobrecarregar ou restringir o comércio dos EUA ao expor
empresas de redes sociais norte-americanas a sanções financeiras por não
removerem ou suspenderem (conteúdos), ao impor multas, restringir acesso a
ativos, contas e sistemas de processamento de pagamentos".
O mesmo pode ser dito em relação às
ações adotadas pelo governo Trump contra a rede social chinesa TikTok.
Alegando ameaça à segurança nacional, a rede chinesa foi obrigada a vender
participação na filial americana a empresários aliados a Trump, no ano passado,
sob ameaça de ser banida em território americano. Uma das áreas que foi
assumida pelos empresários alinhados ao governo americano foi, justamente, a
moderação de conteúdo.
Por fim, a
acusação do governo americano de que "atos, políticas e práticas
do Brasil relacionados ao tratamento preferencial do Pix são
injustos e discriminatórios" se choca com a abordagem de Trump em relação
a empresas estrangeiras de transferências instantâneas de pagamentos.
No fim do primeiro mandato, Trump proibiu as
chinesas Alipay e WeChat de funcionarem nos EUA, apontando o uso ilegal de
dados de americanos pela China, mas a medida foi revertida pelo democrata Joe
Biden. Agora, legisladores aliados de Trump introduziram o projeto de lei No
AliPay para proibir o funcionamento do aplicativo no país.
"Joe Biden reverteu a ação de Trump de
2021 que proibia o serviço de pagamento, e agora tenho orgulho de dar um passo
à frente e restaurar a intenção do presidente de proteger nossa segurança
nacional", disse o deputado republicano Andy Ogles.
Outra justificativa do USTR para
"condenar" o Pix seria um conflito de interesse do Banco Central.
"O duplo papel do Banco Central do Brasil como regulador e
proprietário/operador do Pix cria um conflito de interesses."
Curiosamente, os Estados Unidos lançaram, em
2023, o FedNow, serviço de pagamentos instantâneos do Fed, o banco central
americano. A ideia é que bancos americanos se filiem ao FedNow para a
transferência instantânea de recursos. É um pouco diferente daqueles que têm interface
direta com o consumidor, como os privados Venmo e Zelle e o brasileiro Pix. Mas
a ideia de unificar é a mesma —a diferença é que foi muito menos bem-sucedida
do que o Pix.
A adesão de bancos e uniões de crédito ao
sistema tem sido lenta —cerca de 1.400 dos 9.000 existentes no final do ano
passado.
Enquanto o FedNow teve 8,4 milhões de
transações no ano de 2025 , o Pix teve 7 bilhões de transações só em janeiro de
2026.
Faça o que eu digo, não faça o que eu faço
—esse é, mais uma vez, o mantra de Trump.

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