Correio Braziliense
O autor do livro "A primeira
vítima", o inglês Phillip Knightley, afirma que, em tempo de guerra, a
primeira vítima é a verdade. Nos dias de hoje, Donald Trump dá razão ao autor
Há um livro clássico sobre o exercício do
jornalismo em tempo de guerra. Seu título é A primeira vítima, do autor inglês
Phillip Knightley, publicado em 1978 pela editora Nova Fronteira. É um ótimo
trabalho de pesquisa, recomendável para quem gosta de estudar a ação dos
jornalistas em momentos tumultuados. O autor não alivia: em tempo de guerra, a
primeira vítima é a verdade. Nos dias de hoje, o presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, dá razão ao autor. Ele diz e desdiz, dia após dia, o que ocorre
na sua guerra contra o Irã.
No primeiro momento, a imprensa dos Estados Unidos anunciou que a defesa do adversário estava destruída. Depois, os jornais verificaram que a realidade não era aquela. Em seguida, os jornais foram obrigados a reconhecer que o dispositivo nuclear daquele país está preservado. Trump anunciou o desaparecimento de um império, em referência à Pérsia, ofereceu sucessivos prazos para que o conflito terminasse. E não aconteceu nada. O Estreito de Ormuz continua fechado. O preço do barril de petróleo, que é a única expressão da verdade, persiste muito elevado.
No livro, Phillip Knightley conta a história
de magnata da imprensa norte-americana que enviou seu melhor repórter para
cobrir a guerra em Cuba, no século 19. O repórter desembarcou e procurou a
guerra. Não encontrou nada. Preocupado, entrou em contato com o chefe para
informar que não havia nada parecido com conflito naquele país. O chefe
respondeu: "Faça seu trabalho, a guerra eu providencio". Esse exemplo
é muito elucidativo dos problemas atuais da relação do Brasil com os Estados
Unidos. O governo de Washington não gosta de Luiz Inácio Lula da Silva. Não é
segredo para ninguém. A turma que está no poder é direita radical, inclusive na
sua versão religiosa. Além disso, eles se julgam donos do mundo por decisão
divina e porque possuem o mais poderoso exército do planeta.
Não há contencioso entre Brasília e
Washington, mas o governo dos Estados Unidos está tentando de todas as formas
providenciar a guerra comercial. Usa e abusa de falsidades e meias verdades
para alcançar seu objetivo. É importante ressaltar que a América do Sul é área
desconhecida nos Estados Unidos. Segundo o americano médio, todos no continente
falam espanhol, como os mexicanos, que constituem o retrato do latino naquele
país. A noção comum é de um Brasil onde animais selvagens andam soltos nas
ruas, fugidos das grandes florestas, mas existem boas praias e mulheres lindas,
com biquínis mínimos. Não fazem ideia de que o país está entre as 10 maiores
economias do mundo. E tem um Produto Interno Bruto maior que o da Rússia ou do
Canadá.
A ignorância é proposital. O Brasil não
consta das preocupações imediatas da política externa do grande irmão do Norte.
Não foi sempre assim. Quando, na Segunda Guerra Mundial, os nazistas estiveram
perto de conquistar o norte da África, o comando militar dos Estados Unidos se
apressou em negociar com Getúlio Vargas. Fizeram concessões importantes:
construíram os aeroportos das capitais brasileiras do Norte e do Nordeste, a
maior base norte-americana fora da Europa em Natal, além de conceder
financiamento e tecnologia para a construção da siderúrgica de Volta Redonda.
Já no governo JK, os gringos foram contra o plano de metas e a transferência da
capital. No governo Geisel, manifestaram seu desagrado com a política externa
brasileira que apoiou a independência de Angola e Moçambique. Naquele período,
o governo brasileiro rompeu o acordo militar em vigor desde o final da grande
guerra.
Donald Trump e sua turma criam obstáculos com
objetivo de sobretaxar produtos brasileiros no mercado interno norte-americano.
Naturalmente, seus negociadores retiraram da lista produtos que são importantes
para eles, como café, suco de laranja, carnes e aviões — os da Embraer fazem
sucesso lá. É uma negociação estranha, porque não se fundamenta em nenhum fato.
Os Estados Unidos, para espanto de qualquer negociador isento, mantêm
confortável superavit na relação comercial com o Brasil.
Na verdade, o pessoal da Casa Branca quer se
infiltrar na eleição brasileira para prejudicar Lula e favorecer Flávio
Bolsonaro. A diplomacia brasileira, que é experiente, está diante de problema
quase insolúvel. Não há controvérsias para serem resolvidas. Existe uma questão
política e ideológica. Trump invadiu a Venezuela, sequestrou Nicolás Maduro.
Fez a guerra contra o Irã, isolou Cuba, mas terá dificuldades em proceder da
mesma maneira contra o Brasil. O país é muito grande para se tornar mais um
estado norte-americano. O tempo tende a ficar ruim nas relações entre os dois
países até a realização da eleição no Brasil. E, se Lula vencer o pleito, pode
piorar, porque Marco Rubio, o cubano ressentido, trabalha para suceder Donald
Trump.

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