O Estado de S. Paulo
Nenhuma tecnologia consegue ocupar o lugar de uma família – a menos que nós mesmos o entreguemos
Uma cena muito comum hoje é um casal com uma filha durante o almoço, num restaurante, quando o pai e mãe estão entretidos com os seus smartphones e a criança assistindo a um vídeo. A imagem pode num primeiro instante se mostrar lúdica, afinal a criança está distraída, não dando trabalho algum, e os pais, também, distraídos, envoltos consigo mesmos. Quadro que ilustra bem o argumento trazido por Eugênio Bucci no seu artigo O Papa e a técnica, quando ele diz que uma criança diante de uma tela não está apenas consumindo mídia; está participando de uma engrenagem econômica que transforma atenção em receita; dados, em valor; e comportamento, em lucro.
Assim, havendo a transformação da própria experiência humana em matéria-prima econômica. O texto trata da primeira encíclica do Papa Leão XIV, 135 anos depois da Rerum Novarum, publicada pelo Papa Leão XIII – considerada o marco inaugural da Doutrina Social da Igreja. Em 1891, a encíclica perguntava o que fazer diante da riqueza produzida pelas fábricas e concentrada nas mãos de poucos industriais. Em 2026, a Magnifica Humanitas parece formular uma pergunta semelhante: o que fazer quando a riqueza passa a ser produzida pela atenção, pelos dados e pelo comportamento de bilhões de pessoas conectadas? Hoje as Magnificent Seven – as sete maiores companhias de tecnologia do mundo – representam algo próximo a US$ 24 trilhões de valor de mercado, cerca de 45% do valor do índice S&P 500 e mais da metade do Nasdaq.
Nunca na história moderna um grupo tão
pequeno de empresas concentrou tamanho peso econômico e financeiro. Em 2010,
esse grupo de empresas valia em torno de US$ 1 trilhão. Em 2025, esse grupo
devolveu aos acionistas cerca de US$ 277 bilhões em recompras de ações e
dividendos. Ao mesmo tempo, pagaram aproximadamente US$ 122 bilhões em impostos
sobre renda.
A economia da atenção não apenas financia
inovação. A questão não é que as big techs enriqueceram criando tecnologia. A
questão é que elas transformaram comportamento humano – inclusive infantil – em
ativo econômico. Em que momento a tecnologia deixou de servir às pessoas e
passou a transformar as pessoas em matéria-prima econômica? Talvez a pergunta
não seja apenas o que as big techs farão com os trilhões de dólares acumulados
a partir da economia da atenção. A pergunta é o que nós faremos com uma geração
que aprende a deslizar telas antes de aprender a conversar.
Se a humanidade virou negócio, a responsabilidade não é apenas das plataformas. É também nossa. Afinal, nenhuma tecnologia consegue ocupar o lugar de um pai, de uma mãe ou de uma família – a menos que nós mesmos entreguemos esse espaço.

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