sexta-feira, 19 de junho de 2026

Amizade de Vorcaro com políticos era movida por festas, jatinhos e mesadas, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Operação contra Jaques Wagner mostra que turma do Master não tinha restrição ideológica

Amizade não tem preço, diz a música de Tim Maia. Na política, há controvérsias. Daniel Vorcaro desfilava como amigo do peito de figurões da República. Retribuía o afeto com festas, mesadas, voos de jatinho e outras benesses.

A ternura transbordava da relação entre o banqueiro e Ciro Nogueira. Em conversa com a namorada, Vorcaro descreveu o senador como um de seus “grandes amigos de vida”. Os dois viajaram juntos para Paris, Nova York, Lisboa e Courchevel. Quando o dono do Master sumia, o presidente do PP se dizia com saudade.

O dono do Master também ouvia palavras de carinho de Cláudio Castro, o ex-governador do Rio. “Você é meu amigo, não conta”, escreveu o bolsonarista, ao receber elogios a seus dotes de cantor. “Amigo, foi uma experiência incrível”, derramou-se, depois de um banquete às custas de Vorcaro.

Para Flávio Bolsonaro, o banqueiro parecia ser mais do que um amigo. “Irmão, estou e estarei contigo sempre”, escreveu o senador, após a primeira temporada de Vorcaro no xadrez. Solidário, ele foi visitá-lo na prisão domiciliar, quando o anfitrião era monitorado por uma tornozeleira eletrônica.

Na primeira tentativa de fechar uma delação premiada, o dono do Master tentou justificar seus atos de corrupção como meras demonstrações de amizade. A Polícia Federal rejeitou a conversa. Em relatório, afirmou que as relações do banqueiro com políticos eram pautadas pela “convergência de interesses ilícitos”.

A operação de ontem mostrou que a turma não fazia restrições ideológicas. Sócio de Vorcaro, Augusto Lima chamou o senador Jaques Wagner de “amigo” ao presenteá-lo com ingressos para um show da cantora Taylor Swift. Na tentativa de explicar as benesses, o petista expôs a intimidade com o banqueiro ao tratá-lo pelo apelido de “Guga”.

Fora dos palcos, o autor de “Não quero dinheiro” expunha uma visão nada romântica dos poderes da grana. “É todo mundo roubando. É o bispo, é o padre, é o sacristão, é o macumbeiro, é o presidente, é o deputado, é o cineasta”, filosofou Tim Maia, em documentário de 1987. “O mundo só vai ficar legal depois que terminar o dinheiro. Porém, que não me falte nenhum antes de terminar, entendeu?”, concluiu.

 

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