O Globo
A máquina de Vorcaro parece ter operado onde
havia poder a capturar, sem qualquer preconceito de natureza ideológica. Essa é
a razão pela qual o caso ameaça tantos atores diferentes ao mesmo tempo
A última fase da Operação Compliance Zero
mostrou que o escândalo do Master também atinge a esquerda. Por um tempo, parte
desse campo político se iludiu com a crença de que o escândalo era da direita e
que o impacto na esquerda seria, quando muito, acidental. Mas as revelações da
PF mostram que a máquina de corrupção de Vorcaro não tinha coloração política.
Antes de a PF encontrar meio milhão de reais em dólares e euros na casa de Jaques Wagner, já havia bons motivos para pensar que o escândalo do Master não afetava apenas a direita.
Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula
e Dilma, recebeu R$ 14 milhões do Master para prestar serviços de consultoria
econômica e financeira. Ele é acusado de ter articulado para que Lula recebesse
Daniel Vorcaro em dezembro de 2024 e de ter ajudado na intermediação da venda
do Banco Master ao BRB.
O escritório de Ricardo
Lewandowski, ex-ministro da Justiça de Lula, recebeu ao menos R$ 6,1
milhões para prestar serviços de consultoria jurídica para o Master. O contrato
seguiu vigente por dois anos enquanto Lewandowski era ministro — embora, nesse
período, tenha formalmente se afastado do escritório contratado.
Rui Costa,
ex-ministro-chefe da Casa Civil e ex-governador da Bahia, é acusado de ter
favorecido o Master por meio de um decreto que assinou em janeiro de 2022,
restringindo as hipóteses de portabilidade do crédito consignado dos servidores
estaduais. Na prática, a medida aprisionou no Master os servidores já
endividados, impedindo-os de migrar para instituições com juros menores.
Somado Jaques Wagner, são quatro ministros ou
ex-ministros de Lula que precisam se explicar sobre suas relações com o Master.
Ou cinco, se incluímos Alexandre
Silveira, ministro de Minas e Energia, acusado de ter recebido R$ 20
milhões do Master como doação de campanha.
As evidências que a PF apresentou sobre
Jaques Wagner no relatório são robustas. Segundo a Polícia Federal, ele recebeu
diversas vantagens econômicas, com destaque para a compra de um apartamento em
Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões e para o repasse de R$ 3,5 milhões à BN
Representações, empresa vinculada a seu núcleo familiar.
É suspeito de, como contrapartida, ter atuado
em três frentes de interesse do grupo. A primeira foi a ampliação do crédito
consignado, por meio de uma emenda à Medida Provisória 1.106/2022 que elevava a
margem passível de consignação para trabalhadores, aposentados e pensionistas,
alargando o mercado de crédito do Master.
Além disso, de acordo com as investigações,
Wagner se envolveu na tentativa de aprovar a emenda à PEC 65/2023 que ampliava
o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos — ao elevar a garantia
sobre os papéis emitidos pelo banco, multiplicaria a capacidade do Master de
vender seus títulos de qualidade duvidosa. Por fim, apoiou a operação de venda
do Master ao BRB, arranjo que transferiria ao setor público os prejuízos
acumulados pelo banco.
As novas denúncias — que se somam ao que já
se sabia sobre outros ex-ministros de Lula — mostram que o escândalo do Master
será um fator de grande desestabilização política neste ano eleitoral. Segundo
pesquisa Quaest, quase metade dos brasileiros acha que o escândalo afeta a
todos, governo Lula, governo Bolsonaro, STF, Banco Central e Congresso. Outras
pesquisas, da AtlasIntel e PoderData, sugerem que a percepção pública associa o
escândalo do Master mais a Lula que a Bolsonaro.
A máquina de Vorcaro parece ter operado onde
havia poder a capturar, sem qualquer preconceito de natureza ideológica. Essa é
a razão por que o caso ameaça tantos atores diferentes ao mesmo tempo. O Master
pode não ser um escândalo nem de direita, nem de esquerda, mas isso não
significa que seus efeitos serão politicamente neutros. A depender do que se
revelar e de quando se revelar, o caso pode se tornar uma variável decisiva nas
eleições de outubro.

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