O Globo
Ela é intérprete de um Brasil que nos faz
'compreender a marcha e ir tocando em frente', como nos versos de Almir Sater
que eternizou em disco de 1990, quando festejou um quarto de século de estrada
Parem os relógios, silenciem os telefones,
suspendam a internet. Tomo emprestada a inspiração de W.H. Auden no poema
“Funeral blues”, não para prantear uma morte, mas celebrar uma vida. Maria
Bethânia fez 80 anos. Suspendamos o tempo para festejar a voz que há
seis décadas canta como ninguém as brasilidades. Por um momento, não existem
fraude Master nem dinheiro-vivo-mal-explicado; delação premiada nem tarifaço;
Neymar machucado nem Endrick no banco; golpismo bolsonarista nem Lei da
Dosimetria. Nada de mulheres violadas, crianças maltratadas, motociclistas
desembestados, comunidades aterrorizadas.
A filha biológica de Dona Canô (1907-2012) e espiritual de Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), irmã de Caetano Veloso, cria do Recôncavo Baiano, cujo nome foi tirado de uma canção de Capiba na voz de Nélson Gonçalves, é mais um talento artístico-musical que os anos 1940 legaram ao Brasil. São da mesma década os octogenários Erasmo Carlos e Roberto Carlos, de 1941; Nara Leão, Nei Lopes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Clara Nunes, Tim Maia, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, todos de 1942; Chico Buarque, de 1944; Elis Regina, Geraldo Azevedo, Ivan Lins e Raul Seixas, de 1945. Benza Deus!
Bethânia completou oito décadas de vida e
saúde, corpo a serviço da palavra — lida e cantada. É leitora voraz, curadora
exímia de prosa e verso — está aí seu “Caderno de poesias” (UFMG, 2015) a
provar. De tão reverente à língua portuguesa, canta com crase. Se duvidar,
preste atenção à interpretação de “Você perdeu” (Márcio Valverde e Nélio Rosa),
no álbum “Tua” (2013): “Hoje a minha vida rima/E agradeço àquele adeus”. Juro.
Andei dizendo por aí que o 18 de junho
deveria ser feriado. Na Bahia, onde Bethânia nasceu. Mas também no Rio de
Janeiro, cidade/estado que escolheu para inaugurar, em 1965 (no espetáculo
“Opinião”, de Augusto Boal), a carreira ora consolidada em 19 obras e 2.059
gravações cadastradas no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição
(Ecad).
Bethânia não é apenas a cantora da minha
vida, mas a intérprete de um Brasil que nos faz “compreender a marcha e ir
tocando em frente”, como nos versos de Almir Sater que eternizou em disco de
1990, quando festejou um quarto de século de estrada. É no país que ela canta
que a gente acredita, insiste.
Em 2010, cruzou Brasil e Europa com a turnê
“Amor, festa e devoção”, cenário formado por rosas vermelhas, em celebração aos
45 anos de ofício. Show e álbum ao vivo foram dedicados à mãe. As três palavras
que deram nome ao projeto, ela contou no palco, eram os ensinamentos de Dona
Canô para o bem viver.
O trio de substantivos também resume a
contribuição de Bethânia ao país. Ela canta o amor, num repertório tão vasto
quanto sincero. Vai de Roberto e Erasmo Carlos a Chico Buarque, de Caetano
Veloso a Djavan, de Dominguinhos a Paulo Sérgio Valle, de Chico César a
Gonzaguinha, de Ângela Ro Ro a Sueli Costa.
Visita as festas brasileiras, do litoral ao
sertão. Vai do samba de roda ao sertanejo, do carnaval ao São-João, do forró à
Sapucaí. Foi homenageada pela Estação Primeira de Mangueira em 1994, com
Caetano, Gil e Gal Costa, os Doces Bárbaros. Em 2016, enredo concebido por Leandro
Vieira, levou a escola ao campeonato.
É, além de festa, devoção, porque não há quem
tenha vivido e cantado com tamanha intensidade e frequência a religiosidade
brasileira. É mulher de novena, mandinga e vigília; de procissão e desfile. Em
tempos de aguda intolerância e perseguição à fé alheia, escancara a fé nos
orixás do candomblé e nos santos católicos. Filha de Iansã e devota de Nossa
Senhora, ensina que a convivência respeitosa é, mais que possível, desejável.
Adentrou a profissão berrando “Carcará”, nos
primeiros anos da ditadura militar. Gravou “Cálice”, hino de Chico Buarque e
Gilberto Gil contra o arbítrio, no álbum “Álibi” (1978), ainda durante o
regime. Três anos atrás, quando o Tribunal Superior Eleitoral condenou o
ex-presidente Jair Bolsonaro por abuso de poder político e uso indevido dos
meios de comunicação, disparou de cima do palco, pés descalços, sílaba por
sílaba: i-ne-le-gí-vel. Tem firmeza e coragem.
Maria Bethânia ganhou com Caetano, em
fevereiro passado, aos 79, o Grammy de Melhor Álbum de Música Global. O
reconhecimento veio pelo disco nascido da turnê dos dois irmãos, em 2025. Está
viva e produtiva e forte e engajada e coerente, como sempre. O Brasil — de
ontem, hoje, amanhã — precisa dela como nunca.

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