terça-feira, 23 de junho de 2026

As chances de uma eleição de turno único em SP, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Saída de dois pré-candidatos da disputa aumenta chances de reeleição de Tarcísio no primeiro turno deixam Lula sem palanque no segundo

A desistência de dois pré-candidatos ao governo de São Paulo, o deputado federal Kim Kataguiri (Missão) e ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSDB), faz da eleição em turno único o cenário mais do que provável no Estado que agrega 22% do eleitorado nacional. A perspectiva de enfrentar um 2º turno sem palanque em São Paulo, visto que as projeções de todos os institutos são de elevadas chances de reeleição do governador Tarcísio de Feitas, levou a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a refazer as contas.

A primeira pergunta é se um terceiro nome, capaz de forçar um 2º turno, ainda é possível. Kataguiri diz que desistiu para ser ministro no governo do candidato à Presidência do seu partido, Renan Santos, que tem 3% dos votos na mais favorável das pesquisas. Embora negue, o que houve foi pressão de setores empresariais hoje com poucos interlocutores confiáveis na bancada estadual.

Paulo Serra deve levar o PSDB, que preside no Estado, a apoiar a reeleição do governador Tarcisio de Freitas. No Missão, porém, o lançamento de outro nome não está descartado, ainda que seja difícil reproduzir a projeção de Kataguiri, único deputado federal do partido. A perspectiva de que Renan Santos, candidato competitivo entre os jovens, venha a apoiar Flávio Bolsonaro (PL-RJ), num eventual 2º turno parece ter ficado fora do radar depois dos adjetivos empilhados para se referir ao senador: escroque, corrupto, ladrão, jumento, ridículo, idiota.

Lançar Márcio França na tentativa de produzir o 1º turno parece ser um tiro n’água. Em 2018 França estava no cargo, que assumiu com a desincompatibilização de Geraldo Alckmin, de quem era vice, quando conseguiu 48% dos votos no 2º turno contra João Doria. De lá pra cá, porém, França foi ministro do governo Lula e é fundador do partido que está na vice-presidência. Não convence como terceira via, como o ex-governador Rodrigo Garcia, hoje no Republicanos, o fez em 2022. A postulação ainda cria um problema para Simone Tebet, candidata ao Senado em São Paulo. Hoje filiada ao PSB, a ex-ministra do Planejamento teria que pedir votos para França e não para Fernando Haddad.

A insegurança petista sobre o futuro da campanha paulista de Lula vem, em grande parte, da capacidade de reproduzir a recuperação do PT nos grandes centros urbanos de 2022. Todas as contas já foram feitas por Jairo Nicolau. Professor da FGV-RJ, acabou de lançar “O país dividido” (Zahar), e já tem artigo no forno para a revista do Instituto de Estudos Avançados da USP sobre a geografia do voto em disputa (“Ascensão urbana e recuo metropolitano: a geografia eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018 e 2022”).

O PT chegou à Presidência em 2002 arrebanhando os votos das grandes cidades. Ganhou 67% do colégio eleitoral dos municípios com mais de 500 mil habitantes naquele ano. Este voto foi caindo paulatinamente em todas as eleições seguintes até 2018.

Quem devolveu Lula ao Palácio do Planalto em 2022 não foi o Nordeste, que nunca o abandonou, mas as grandes cidades do Sudeste. Em 2018, Bolsonaro abriu vantagem de 5,1 milhão de votos sobre Haddad neste colégio eleitoral, anulando, em grande parte, a vantagem do PT no Nordeste. Quatro anos depois, esta vantagem caiu para 784 mil. São 23 municípios com mais de 500 mil habitantes. Desses, dez são paulistas (São Paulo, Guarulhos, Campinas, São Bernardo, Santo André, Sorocaba, Osasco, São José dos Campos, São José do Rio Preto).

Esses municípios foram decisivos para que Lula, com 44% dos votos no 2º turno (mesmo percentual de Haddad) diminuísse a vantagem com a qual o bolsonarismo, em 2018, tinha conseguido anular a dianteira petista no Nordeste. O impacto da gestão bolsonarista da pandemia já vai longe, mas a moderação de Alckmin na vice, permanece.

Em 2026 o PT espera acrescentar nesta cesta o apoio bolsonarista ao tarifaço de Donald Trump, que afetou São Paulo mais do que a média do país, os problemas enfrentados por Tarcísio na segurança e na Sabesp privatizada, além do impacto do bolsonarismo, via “Dark Horse”, com o Master.

O presidente de um partido de centro-direita está menos preocupado com as chances de Lula contornar a eventual ausência de palanque paulista do que os próprios petistas. Diz que ainda está longe o teto para a rejeição de Flávio Bolsonaro com os desdobramentos do Master e, enquanto o PT teme que o envolvimento do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), afete mais o eleitor paulista do que o baiano, este dirigente vê um dano irremediável no apoio da classe média ao filho do ex-presidente.

Outra liderança do mesmo campo político vê, além do potencial aumento de rejeição do senador, chances concretas de Lula ter mais votos no Sudeste do que em 2022, seja pelo desgaste de Flávio e Tarcísio, seja pela robustez do palanque lulista do ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) no Rio ou ainda pela geleia geral de Minas onde Romeu Zema (Novo) deixou de ser o eixo.

De concreto, porém, o que há pela frente no maior colégio eleitoral do país é uma disputa em que o favoritismo do atual governador, sem um terceiro nome viável, tem chances óbvias de confirmá-lo no cargo no 1º turno. Se, num segundo, as máquinas municipais estarão desativadas, restarão as redes sociais, mais agressivas à direita. Tem ainda as mobilizações de rua, mas é cedo para dizer que o PT esteja vacinado contra o uso que as redes fizeram do #EleNão” em São Paulo. Daí o sinal amarelo na campanha petista.

 

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