Valor Econômico
Senador petista, líder do governo no Senado, foi alvo da 9º fase da Operação Compliance Zero, sobre caso Master
A operação
policial contra o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), dentro das
investigações do escândalo
do Banco Master, se assemelha tanto na forma quanto no impacto
de opinião pública ao caso do presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira (PI). Wagner
representa para a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o
mesmo nível de desgaste na opinião pública do que representou Nogueira para a
campanha do senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), seu principal adversário na corrida
presidencial. Não são tiros letais nem para um, nem para outro.
Ciro e Wagner são lideranças políticas com peso regional, do Nordeste, com muita articulação de bastidores em Brasília e pouco conhecidas nacionalmente. Parecem no estilo: são moderados em suas essências e convergem para o centro. Ciro está à esquerda da direita e Wagner à direita da esquerda. Ambos convergem também para Daniel Vorcaro, a favor de quem teriam atuado no Senado, de acordo com a linha de investigação do inquérito.
O senador piauiense é um aliado leal, embora
relativamente recente, do ex-presidente Jair Bolsonaro, de quem foi ministro da Casa Civil.
O escândalo de sua ligação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro reforçava a
narrativa de que o caso Master é uma assombração na casa dos outros, não na de
Lula. Mas não era um tiro no coração de Flávio: ele resiste a entrar na
campanha do senador, porque quer negociar para seu partido a vaga de vice na
chapa.
O envolvimento de Wagner no caso não chega a
surpreender. A ligação financeira entre a sua nora e o sócio de Vorcaro, o ex-banqueiro Augusto Lima, é
conhecida há alguns meses. Ele é um quadro histórico do PT, uma das pilastras
do partido, tendo sido ministro tanto de Dilma Rousseff quanto de Lula em várias
pastas. Foi cogitado como candidato a presidente da República em 2018. Não
está, contudo, no vórtice da campanha à reeleição de Lula. Seu envolvimento no
caso, do ponto de vista de narrativa, reequilibra o jogo para a oposição, que
pode argumentar que o reino de Daniel Vorcaro é ecumênico, tem muitas moradas.
Dizer que todos estão chafurdados no mesmo lodo não chega a ser, contudo, um grande trunfo. Pelo contrário: aumenta o descrédito da classe política e reforça nos dois polos as vertentes mais radicais tanto da direita, quanto da esquerda. Deve abrir mais oportunidades para Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) na campanha presidencial, únicos a vestirem a roupagem antissistema.
O caso Master sangrou Lula e Flávio nos
últimos meses em função de dois outros episódios: o
áudio em que Flávio pede dinheiro a Vorcaro para a conclusão do filme Dark
Horse, pelo fato de representar o envolvimento direto de um presidenciável, e
as suspeitas que pesam contra o ministro do Supremo Tribunal Federal,
Alexandre Moraes. Embora não seja um aliado de Lula, é assim que
Moraes é visto pela opinião pública, e seu nome, ao contrário de Wagner, é
nacionalmente conhecido. Ressalve-se que Moraes não é objeto de nenhuma
operação policial e sequer é formalmente investigado.
As implicações mais graves do cerco policial
a Wagner, em um primeiro momento, são as políticas e as eleitorais locais.
Politicamente, desarticula a já fraca articulação do governo no Congresso, em
um momento em que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), também está
ameaçado pelas investigações. A neutralização de Wagner tende a isolar o
governo.
Eleitoralmente
enfraquece a chance de reeleição de Jaques Wagner na Bahia. O PT concorre
no Estado com chapa pura. A outra cadeira ao Senado é disputada pelo
ex-ministro da Casa Civil Rui
Costa, por ora poupado da artilharia do Master. Costa lidera as
pesquisas que foram feitas na Bahia. O também senador Ângelo Coronel (Republicanos-BA) e
o ex-ministro João
Roma (PL) disputam o Senado pela direita. Essa conjuntura
cria dificuldades para Wagner ter tanto o primeiro quanto o segundo voto.
É preciso ficar atento aos desdobramentos das
investigações. A fase desta quarta-feira da Operação Compliance foi
muito circunscrita a Jaques Wagner. Caso se avance em relação a toda
ramificação do PT baiano, o dano pode ser muito maior: o PT governa a Bahia
desde 2006 e são marqueteiros ligados ao PT baiano que comandam a comunicação
do governo e da campanha.

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