Folha de S. Paulo
Facções criminosas serão as maiores
beneficiadas com a medida
Hoje, 11 mil adolescentes infratores já
sofrem privação de liberdade
Qual a melhor alternativa para um adolescente
de 16 anos que roubou um celular na rua? Alternativa 1: ser preso para crescer
no crime nas prisões brasileiras, onde a taxa de reincidência pode chegar a
50%. Alternativa 2: sofrer internação em unidades socioeducativas com
reincidência de menos da metade das prisões.
Nesta quarta (10), a CCJ do Congresso mostrou preferir a alternativa 1: fornecer mão de obra para o crime em vez de investigar infrações graves e favorecer a reabilitação de adolescentes.
O problema com a PEC da redução
da maioridade penal é que, além de inconstitucional, a proposta é
estúpida e contraintuitiva. Aqui uso o termo "estúpida" no seu
sentido lexical: falta à medida discernimento sobre seu impacto. Parte do
Congresso finge não ver que os maiores beneficiados pela redução da maioridade
penal são, pasme, as facções criminosas. PCC e Comando
Vermelho controlam presídios em todos os estados, para onde seus
empregados de 16 e 17 anos seriam enviados para escolher entre morrer ou
delinquir.
Proponentes da PEC da redução
da maioridade penal defendem que se trata de uma medida dura contra o
crime. A afirmação, no entanto, é mentira.
Hoje, adolescentes entre 12 e 17 anos já
sofrem privação de liberdade (são 11 mil adolescentes infratores no país, ante
960.976 adultos privados de liberdade). A CCJ garantiu, de um lado, o combate a
um problema imaginário —uma multidão de homicidas adolescentes contumazes que
não existe— e, de outro, assegurou prisões ainda mais abarrotadas como escolas
do crime.
O anseio por mais segurança por parte da
população é real e deve ser respondido. A redução da maioridade penal não faz
isso.
Na terça (9), o Sou da Paz lançou uma
pesquisa em que elenca cinco prioridades para a área de segurança, como
fortalecer as polícias, mais inteligência para combater o crime
organizado e reduzir roubos de celulares, retirar armas ilegais de
circulação e proteger meninas e mulheres.
Pôr na cadeia adolescentes de 16 anos não é
uma das soluções para a segurança, mas a continuação do seu declínio.

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