Um paradoxo marca as eleições brasileiras:
crianças estão em todo lugar, em slogans, imagens e discursos, mas nem sempre
aparecem efetivamente na disputa eleitoral. Isso é especialmente verdade no
debate sobre segurança pública, que é hoje a principal preocupação dos
eleitores. Por quê?
A violência preocupa os brasileiros mais do que a corrupção, a saúde ou a economia, segundo pesquisa recente da Genial/Quaest. E não há dúvida de que meninos e meninas são os mais impactados por essa insegurança.
Nas últimas décadas, o Brasil avançou na
garantia de direitos como saúde e educação, mesmo diante de profundas
desigualdades. O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) acompanhou e
contribuiu com essa jornada desde 1950, quando chegamos ao país, trabalhando
junto à União, estados e municípios, ao lado do setor privado, da sociedade
civil e das próprias crianças e adolescentes. Mas vimos também que uma agenda
segue se agravando no Brasil: a violência contra meninas e meninos, dentro e
fora de casa.
Dito isso, e a quatro meses das eleições, é
urgente que candidatos e candidatas assumam um compromisso público para não
perder mais nenhuma criança para a violência. Qualquer violência: não importa
se é a que acontece dentro de casa, muitas vezes praticada por familiares ou
pessoas próximas, ou a que acontece na tela dos celulares, ou a que acontece
nas ruas, como consequência da violência armada, da criminalidade, das
intervenções das forças de segurança, do racismo ou da misoginia.
Para isso, é fundamental que as candidatas e
os candidatos à Presidência e aos governos estaduais se comprometam a criar e
colocar em prática uma Política Nacional de Prevenção de Violências contra
Adolescentes.
Essa política deve focar nos mais impactados,
os meninos negros, de periferia, e articular resposta e prevenção, envolvendo
não só a pasta de segurança pública, mas as de educação, trabalho, saúde,
assistência social e direitos humanos, com uma governança clara e um orçamento
próprio.
O objetivo deve ser garantir, especialmente
às crianças e aos adolescentes em maior risco, o acesso pleno a direitos,
oportunidades e serviços, além de contar com mecanismos de monitoramento e
avaliação das políticas públicas que forem implementadas, de modo a produzir
evidências sobre seus resultados. E, paralelamente, investigar e
responsabilizar os autores de violência, garantindo a Justiça.
Só assim, iremos combater o ciclo vicioso em
que milhares de meninos e meninas são submetidos à pobreza, ao racismo e às
violências; abandonam a escola; não têm oportunidades dignas de trabalho ou de
desenvolvimento; e terminam mortos ou encarcerados.
Para o âmbito da violência doméstica, e
principalmente para a primeira infância, o compromisso dos candidatos deve ser
o de apoiar as famílias. Mães, pais, avós e outros cuidadores precisam ser
orientados a criar crianças sem recorrer à violência. Isso não significa
ausência de limites ou disciplina, mas uma forma de educar sem agressão,
garantindo proteção, vínculo e desenvolvimento saudável. Famílias devem,
também, ser orientadas para saber reconhecer e o que fazer se descobrirem que a
criança foi vítima de agressões sexuais, psicológicas ou físicas. E a Justiça
deve atuar para apoiar as vítimas e responsabilizar os agressores.
Esse apoio não deve ficar apenas nas
palavras. Ele deve ser integrado nas principais políticas nacionais e estaduais
de primeira infância, cuidados, assistência social e enfrentamento às
violências, em um compromisso de candidatos e candidatas com uma parentalidade
mais protetiva e o cuidado com as crianças.
E, claro, essas promessas precisam ser feitas
durante as eleições e concretizadas depois delas, além de refletidas no
planejamento orçamentário dos governos eleitos.
Não priorizar as crianças no debate de
segurança pública custa às famílias, ao Estado e aos próprios meninos e
meninas. Em 2026, colocar a infância no centro do debate sobre violência é
urgente e indispensável, e deve ser um compromisso de cada candidato e
candidata para rompermos os ciclos das violências, garantir o desenvolvimento
pleno das crianças e trazer mais prosperidade para o Brasil.
*Joaquin Gonzalez-Aleman — representante do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) no Brasil

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