Folha de S. Paulo
Lavagens de dinheiro oriundas de negociatas
políticas e de crimes violentos se entrelaçam no caso Master
No entanto, quanto pior a reputação das instituições brasileiras, menor sua capacidade de efetivamente responder ao desafio que enfrenta
Há mais de dois anos escrevi sobre a Tammany Hall: uma espécie de confraria que dominou o partido democrata em Nova York por 40 anos, inspirou filmes e livros, e acabou virando símbolo de máquina política corrupta. Foi desmantelada nos anos trinta do século passado, mas na literatura especializada em corrupção é o exemplo paradigmático de corrupção política. Ao contrário do que afirmava um dos seus líderes, em uma fórmula célebre, não se tratava apenas do que chamou "corrupção honesta" —ou seja, aquela que envolve apenas "conflito de interesses", fraudes em licitações e blindagem contra punições. O esquema corrupto envolveu paulatinamente "corrupção desonesta" por "saqueadores" (desvios) e se entrelaçou com a criminalidade violenta liderada pelo capo Lucky Luciano.
Tammany Hall talvez deixe de ser o exemplo
paradigmático de corrupção política para ceder lugar ao Rio de
Janeiro. A magnitude dos esquemas recentemente revelados é tamanha
que alcança praticamente toda a estrutura institucional —dos três Poderes à
Procuradoria e a órgãos do Estado, organizações privadas. E, como se a
realidade buscasse imitar a ficção que consagrou Nova York como cenário
clássico da máfia, um dos supostos chefões da organização vive em Miami.
Tammany Hall inspira três reflexões.
A primeira é que o estado —e mais importante,
o país— está perdendo a guerra contra a corrupção. Afinal, todos os
governadores eleitos no Rio de Janeiro nos últimos 30 anos foram presos ou destituídos
do cargo. O caso Sérgio Cabral é
emblemático. O que autoriza essa conclusão forte é que muitos protagonistas de
casos notórios de corrupção reaparecem em denúncias recentes. E não só em
relação ao caso do Rio de Janeiro. Isto vale para a Lava Jato e o Mensalão.
The Economist repercutiu internacionalmente a degradação institucional do
estado. E dedicou mais de uma matéria ao caso Master.
A segunda é que o caso Master e sua colossal
capilaridade colocam a questão de que a degradação institucional sistêmica
escalou para o nível nacional. Afinal, as denúncias chegaram na Corte mais
importante do país. A questão dos custos reputacionais envolvidos adquiriu
agora enorme importância. As decisões recentes do governo americano sobre a
classificação das organizações criminosas brasileiras levam o problema a outro
nível. No entanto, quanto pior a reputação das instituições brasileiras, menor
sua capacidade de efetivamente responder ao desafio que enfrenta.
A terceira é que o que havia em comum entre a
"corrupção honesta" e a "desonesta" em Tammany Hall era
sobretudo as formas de lavagem de dinheiro. As oriundas de negociatas políticas
e de crimes violentos se entrelaçavam e contaminavam reciprocamente. Exatamente
como ocorre no Master, especialmente no caso da Reag.
Como ocorreu com outras decisões tomadas por
Trump (aplicação da Magnitsky, de tarifas punitivas etc.), a nova classificação
dada a organizações criminosas brasileiras inscreve-se em sua tática
transacional de maximizar ameaças para garantir ganhos estratégicos. Sua
repercussão no país é maximizada pela sua exploração eleitoral. Provavelmente o
efeito real será muito menor que o alegado nas narrativas políticas.
*Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

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