O Estado de S. Paulo
O tipo de diplomacia informal que Flávio Bolsonaro foi fazer em Washington depende de afinidade ideológica
O senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) bateu no peito e assumiu o crédito pela decisão do governo americano de declarar o PCC e o Comando Vermelho, facções criminosas brasileiras, como terroristas. Espera, com isso, ganhar a fama de durão e os votos de quem acredita em uma bala mágica capaz de acabar com a bandidagem. No caso, por meio de uma intervenção externa, um Trump ex machina descendo à terra com uma solução milagrosa. Pura demagogia. A nova classificação dos Estados Unidos para o PCC e o CV vai gerar ruído com o governo brasileiro, certamente, e talvez nem cause tanto dano quanto se tem alardeado, mas bem não vai fazer.
O que realmente espanta no episódio é a nova
investida do clã Bolsonaro junto a um governo estrangeiro para obter a
interferência em assuntos internos do Brasil. No ano passado, o ex-deputado
federal Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, fez lobby para que o presidente
americano impusesse sobretaxas às importações brasileiras e sanções a
autoridades do país, prejudicando a economia nacional. A diatribe
antipatriótica foi um presentão de marketing para o presidente Lula.
É mais difícil demonstrar, para os eleitores,
as consequências complexas da inclusão do PCC e do CV na lista de grupos
terroristas nos Estados Unidos. Do ponto de vista dos planos eleitorais de
Flávio, porém, os ganhos também são incertos. A foto de família com Trump no Salão
Oval tem o efeito imediato de ofuscar as revelações dos contatos de quinto grau
entre Flávio e o encrencado banqueiro Daniel Vorcaro. Aos olhos de uma minoria
dos brasileiros, ser recebido pelo presidente do país mais poderoso do mundo
pode parecer uma demonstração de credibilidade internacional. Nada, porém, que
ajude a converter independentes indecisos.
Afinal, o tipo de diplomacia informal que
Flávio foi fazer em Washington depende, por definição, de afinidade ideológica.
É o que se pode chamar de diplomacia de facção, em que a relação bilateral se
dá não entre Estados, mas, sim, entre projetos políticos irmãos.
Trata-se de uma atuação com uma seletividade inexistente, por exemplo, na diplomacia paralela feita por dissidentes políticos que buscam apoio contra regimes autoritários e sem o verniz institucional da diplomacia partidária, que ocorre em torno de alianças internacionais entre legendas com ideais e programas comuns. A diplomacia de facção de Flávio Bolsonaro nada pode contra as facções criminosas do Brasil.

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