O Globo
Temos que esperar o que os fatos vão dizer,
em uma eleição em que não há programas e projetos em jogo, mas acusações e
denúncias entre dois candidatos rejeitados pela maioria da sociedade
Do jeito que vai a política nacional, não é possível afirmar que o presidente Lula atingiu seu teto eleitoral, nem que o senador Flavio Bolsonaro está mantendo seu piso. A pesquisa do DataFolha indica, porém, a possibilidade de que a eleição se resolva no primeiro turno, ou que chegue ao segundo com os dois candidatos empatados na margem de erro. Os demais candidatos, tanto à esquerda quanto, especialmente, à direita, não parecem ter fôlego para dar uma arrancada nos próximos dois meses. A eleição dos rejeitados parece ser também a dos envolvidos em questões de corrupção.
As investigações, tanto do caso Master como a
das falcatruas do INSS, estão em pleno andamento, e podemos, nós mais do que os
candidatos, ser surpreendidos com novas descobertas. Caminhamos para uma
campanha política de baixíssimo nível, afetada por denúncias de corrupção. Vai
ser um candidato acusando o outro, com fatos novos aparecendo a toda hora.
Assim como o senador Flávio Bolsonaro caiu depois da divulgação de conversas
com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, vamos ver o que vai acontecer com a
candidatura do presidente Lula depois do episódio em que o senador Jacques
Wagner, líder do governo, se viu envolvido em negócios nebulosos que lhe
renderam um apartamento para a filha, quase cem mil dólares e euros armazenados
em casa, viagens e vantagens luxuosas para o exterior.
Acredito que muita coisa vai surgir, nenhum
lado está livre, porque Vorcaro estendeu seus tentáculos apartidariamente, o
negócio dele era dinheiro e influência. Comprou influência e prestígio em todos
os partidos e instâncias governamentais, até mesmo onde a corrupção não havia
chegado tão escancaradamente, como o Banco Central. Há ainda a investigação da
fraude do INSS, da qual o ministro André Mendonça também é o relator no STF. Se
aparecer algo a respeito do filho do Lula, o Lulinha, que está morando na
Espanha, vai ser outro baque na campanha da reeleição.
Temos que esperar o que os fatos vão dizer,
em uma eleição em que não há programas e projetos em jogo, mas acusações e
denúncias entre dois candidatos rejeitados pela maioria da sociedade. Este é o
paradoxo da democracia, candidatos desprezados por seus históricos ligados à
corrupção disputam um eleitorado que, em parte decisiva, os rejeita, mas pode
dar a um deles o poder de realizar aquilo por que são rejeitados. A corrupção
está muito entranhada na política brasileira, nas elites de Brasília, em todos
os poderes. É uma vergonha que o presidente da Câmara, Hugo Motta, diga não ver
nada demais em receber de Daniel Vorcaro carona em jatinho particular e
pagamento de hotéis de luxo no exterior. É querer normalizar coisas que o senso
comum diz que são erradas, que são corrupção. Fingem não entender que são
funcionários públicos, recebem dinheiro público, são funcionários da sociedade,
não podem ficar se dando a esses luxos.
São presidentes da Câmara, do Senado, líderes
do governo, presidentes de partido, todos usufruindo de benefícios indevidos.
Vai chegar o momento em que Vorcaro vai entender que, se não fizer uma delação
completa e profunda, vai ficar 30 anos na cadeia. Até agora, está achando que
vai se safar, e o histórico brasileiro dá razão a ele - pode ficar alguns anos
na cadeia e ser absolvido. Ou nem isso, porque nem julgam mais, anulam e
acabou. Mas é uma jogada arriscada.
O senador Jacques Wagner indicou os
ex-ministros petistas Guido Mantega e Ricardo Lewandowski para assessorar
Vorcaro no Banco Master, e por aí se mede a influência que tinha dentro do
esquema. Foi Mantega quem conseguiu que Lula recebesse, fora da agenda no
Palácio do Planalto, o banqueiro Daniel Vorcaro, tendo a seu lado o futuro
presidente do Banco Central, Gabriel Galipolo. E la nave vá

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