domingo, 21 de junho de 2026

O fator Master nesta eleição, por Míriam Leitão

O Globo

Os atos de Daniel Vorcaro expõem uma crise política mais profunda, na qual a relação entre autoridades e endinheirados ultrapassa os limites do aceitável

O Banco Master já é um fator relevante na eleição de 2026. Estará na mente do eleitor. O que houve na última semana não igualou tudo, apenas deu a todos os participantes da peleja eleitoral a chance de entender que a crise provocada pelo banqueiro que queria comprar todo mundo é mais profunda. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, precisa se defender com argumentos que fiquem de pé. O pré-candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, não será salvo pela tese fraca de que era “dinheiro privado”. Daniel Vorcaro assediava autoridades no pressuposto de que o dinheiro público e as leis iriam socorrê-lo. Nunca foi dinheiro privado.

Para entender o caso, é preciso voltar à quadra um: as agências de controle no governo Lula impuseram todas as derrotas que Daniel Vorcaro e seus cúmplices amargaram. O Banco Central recusou o negócio que seria a salvação do Master, a compra pelo BRB. Se a operação fosse permitida, o rombo provocado pela gestão fraudulenta do ex-banqueiro estaria todo no colo do setor público. A direção do BRB, no governo do bolsonarista Ibaneis Rocha, comprou uma carteira do Master. Foi o suficiente para deixar o banco estadual em frangalhos.

O Banco Central vetou o negócio dos sonhos de Vorcaro, identificou indícios de crime na atuação do Master e de má conduta de dois servidores graduados. Entregou tudo ao Ministério Público e afastou os funcionários. Com base nessa notícia-crime, o assunto foi levado à Polícia Federal que tem investigado. Na nona fase, a operação Compliance Zero chegou a Jaques Wagner, mas já havia atingido o senador Ciro Nogueira, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, o ex-governador bolsonarista Cláudio Castro e integrantes da família Bolsonaro na esteira do estranho financiamento ao filme propaganda Dark Horse. O presidente da Câmara, Hugo Motta, teve contas de viagem internacional pagas pelo ex-banqueiro e reagiu: “Não vejo problemas”. Pois é. O problema está em não vê-los.

A Polícia Federal no governo Bolsonaro foi alvo explícito de intervenção do então presidente. Agora tem investigado com autonomia, olhando para todos os lados.

Voltemos a setembro do ano passado. No dia 2, os partidos do Centrão — PP, União Brasil, PL, Republicanos — e o PSB assinaram pedido de urgência para um projeto do PP que dava ao Congresso o poder de demitir dirigentes do Banco Central. Era intimidação. Não funcionou. No dia 3, o Banco Central negou autorização para a compra do Master pelo BRB. No dia 4, o enteado do senador Jaques Wagner disse em conversa com o banqueiro Augusto Lima “Amanhã vence os boletos e são altos”. O sócio de Vorcaro avisou que o cenário estava “crítico" e, segundo a PF, “vinculou a dificuldade financeira ao insucesso da operação Banco Master/BRB”. No dia 8, Flávio Bolsonaro mandou um áudio para Daniel Vorcaro. Solidário e cobrador. “E você eu sei que está passando por um momento dificílimo”… “tem muita parcela para trás, cara, tá todo mundo tenso (…) já tem muita conta para pagar esse mês”.

O negócio que jogaria nos cofres públicos toda a lambança — farras, shows, apartamentos, jatinhos, advogados, extravagâncias em Nova York, Paris, Lisboa, Los Angeles e Courchevel — seria a compra do Master pelo BRB. O Banco Central frustrou a manobra e pagou um preço alto. Enfrentou pressões do Centrão através do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União e do ministro Dias Toffoli, o primeiro relator do caso.

No capítulo mais recente, mas não o último dessa investigação, o atingido foi o senador Jaques Wagner. O relator, ministro André Mendonça, não avisou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre a operação, mas não aceitou o pedido da Polícia Federal de fazer busca e apreensão no Senado. Wagner, diante das trocas de mensagens que teve com Augusto Lima sobre a compra de um apartamento, disse que teria pedido ao “Guga" para comprar o apartamento que depois ele recompraria. Quem no mundo tem um amigo banqueiro a quem possa pedir a compra provisória de um apartamento? Um detalhe meio novelesco. Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, é casado com Flávia ex-Arruda que foi ministra da secretaria de Governo de Jair Bolsonaro.

O que é o caso Master? Uma chance, uma enorme oportunidade de fixar a fronteira do que é inaceitável nas relações entre autoridades e endinheirados. Isso é o que realmente interessa ao Brasil.

 

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