O Globo
Os atos de Daniel Vorcaro expõem uma crise
política mais profunda, na qual a relação entre autoridades e endinheirados ultrapassa
os limites do aceitável
O Banco Master já é um fator relevante na eleição de 2026. Estará na mente do eleitor. O que houve na última semana não igualou tudo, apenas deu a todos os participantes da peleja eleitoral a chance de entender que a crise provocada pelo banqueiro que queria comprar todo mundo é mais profunda. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, precisa se defender com argumentos que fiquem de pé. O pré-candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, não será salvo pela tese fraca de que era “dinheiro privado”. Daniel Vorcaro assediava autoridades no pressuposto de que o dinheiro público e as leis iriam socorrê-lo. Nunca foi dinheiro privado.
Para entender o caso, é preciso voltar à
quadra um: as agências de controle no governo Lula impuseram todas as derrotas
que Daniel Vorcaro e seus cúmplices amargaram. O Banco Central recusou o
negócio que seria a salvação do Master, a compra pelo BRB. Se a operação fosse
permitida, o rombo provocado pela gestão fraudulenta do ex-banqueiro estaria
todo no colo do setor público. A direção do BRB, no governo do bolsonarista
Ibaneis Rocha, comprou uma carteira do Master. Foi o suficiente para deixar o
banco estadual em frangalhos.
O Banco Central vetou o negócio dos sonhos de
Vorcaro, identificou indícios de crime na atuação do Master e de má conduta de
dois servidores graduados. Entregou tudo ao Ministério Público e afastou os
funcionários. Com base nessa notícia-crime, o assunto foi levado à Polícia
Federal que tem investigado. Na nona fase, a operação Compliance Zero chegou a
Jaques Wagner, mas já havia atingido o senador Ciro Nogueira, ex-ministro-chefe
da Casa Civil de Jair Bolsonaro, o ex-governador bolsonarista Cláudio
Castro e integrantes da família Bolsonaro na esteira do estranho
financiamento ao filme propaganda Dark Horse. O presidente da Câmara, Hugo Motta,
teve contas de viagem internacional pagas pelo ex-banqueiro e reagiu: “Não vejo
problemas”. Pois é. O problema está em não vê-los.
A Polícia Federal no governo Bolsonaro foi
alvo explícito de intervenção do então presidente. Agora tem investigado com
autonomia, olhando para todos os lados.
Voltemos a setembro do ano passado. No dia 2,
os partidos do Centrão — PP, União Brasil, PL, Republicanos — e o PSB assinaram
pedido de urgência para um projeto do PP que dava ao Congresso o poder de
demitir dirigentes do Banco Central. Era intimidação. Não funcionou. No dia 3,
o Banco Central negou autorização para a compra do Master pelo BRB. No dia 4, o
enteado do senador Jaques Wagner disse em conversa com o banqueiro Augusto Lima
“Amanhã vence os boletos e são altos”. O sócio de Vorcaro avisou que o cenário
estava “crítico" e, segundo a PF, “vinculou a dificuldade financeira ao
insucesso da operação Banco Master/BRB”. No dia 8, Flávio Bolsonaro mandou um
áudio para Daniel Vorcaro. Solidário e cobrador. “E você eu sei que está
passando por um momento dificílimo”… “tem muita parcela para trás, cara, tá todo
mundo tenso (…) já tem muita conta para pagar esse mês”.
O negócio que jogaria nos cofres públicos
toda a lambança — farras, shows, apartamentos, jatinhos, advogados,
extravagâncias em Nova York, Paris, Lisboa, Los Angeles e Courchevel — seria a
compra do Master pelo BRB. O Banco Central frustrou a manobra e pagou um preço
alto. Enfrentou pressões do Centrão através do ministro Jhonatan
de Jesus, do Tribunal de Contas da União e do ministro Dias
Toffoli, o primeiro relator do caso.
No capítulo mais recente, mas não o último
dessa investigação, o atingido foi o senador Jaques Wagner. O relator, ministro
André Mendonça, não avisou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre a
operação, mas não aceitou o pedido da Polícia Federal de fazer busca e
apreensão no Senado. Wagner, diante das trocas de mensagens que teve com
Augusto Lima sobre a compra de um apartamento, disse que teria pedido ao
“Guga" para comprar o apartamento que depois ele recompraria. Quem no
mundo tem um amigo banqueiro a quem possa pedir a compra provisória de um
apartamento? Um detalhe meio novelesco. Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, é
casado com Flávia ex-Arruda que foi ministra da secretaria de Governo de Jair
Bolsonaro.
O que é o caso Master? Uma chance, uma enorme
oportunidade de fixar a fronteira do que é inaceitável nas relações entre
autoridades e endinheirados. Isso é o que realmente interessa ao Brasil.

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