Por Caio Sartori – O Globo
Após analisar triunfo de Bolsonaro em livro, professor da FGV destrincha mudanças vivenciadas pelo país entre a primeira e a última vitória do petista. Para ele, só a economia não é mais suficiente para garantir sucesso eleitoral
Depois de “O Brasil dobrou à direita”, no
qual analisa o triunfo eleitoral de Jair Bolsonaro (PL) em 2018, o cientista
político Jairo Nicolau, professor do Centro de Pesquisa e Documentação de
História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV),
publica agora “O país dividido”, também pela editora Zahar. Trata-se de um
diagnóstico das mudanças sociais, demográficas e políticas vivenciadas
nacionalmente entre a primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em
2002, e a última, em 2022. E elas são muitas.
Em entrevista ao GLOBO, Nicolau afirma que a
economia é insuficiente, hoje, para medir se um presidente será ou não
bem-sucedido. A divisão do país, diz, não é ideológica, mas produz repulsas
intransigentes e dificulta a melhora na avaliação do petista.
Temas morais e a segurança ganharam protagonismo nos últimos anos. Eles podem suplantar o debate econômico ou ainda “é a economia, estúpido”, como diz a máxima política?
Essa frase é de 1992, quando o impacto da
economia era muito evidente. Os estudos recentes são bem mais críticos.
Obviamente a economia não pode ser desconsiderada, mas os dados mostram que ela
passou a conviver com outros fatores relevantes. Em 2018, o país estava saindo
de uma crise econômica, a economia ainda em baixa, e o tema não foi esse.
Também não sei se foi tão central em 2022, foi mais a questão da gestão da
pandemia. Agora, de novo, a economia está melhorando, mas isso não se traduz em
apoio a Lula.
Então essa insuficiência da
economia é a grande explicação para a avaliação ruim de Lula, mesmo com bons
indicadores macroeconômicos?
Para mim, ainda é um enigma esse desajuste
entre avaliação de governo e a economia, até considerando o apoio que Lula tem
nas intenções de voto. Não faz muito sentido um presidente com avaliação baixa estar
vencendo uma simulação de eleição no segundo turno. Tem algo que não fecha.
Não é o tal duelo de
rejeições?
Não gosto da tese do duelo de rejeições, mas
se criou uma divisão em duas grandes tribos que trouxeram temas para além da
discussão da economia. O que as pesquisas mostram é que nenhum presidente,
Bolsonaro ou Lula, consegue subir muito sua taxa de avaliação porque a rejeição
do lado rival parece ter menos a ver com políticas públicas e mais com
atributos pessoais. A diferença quando comparamos com eleições anteriores é
esse filtro das questões culturais que dividem as pessoas em tribos. Não estou
dizendo que a divisão é ideológica, mas ela existe. Para mim, é o que explica a
paralisia da avaliação. Mesmo com mais dinheiro no contracheque, com a isenção
do IR (Imposto de Renda) para quem ganha até R$ 5 mil, isso não moveu a
avaliação de Lula. Outras questões passaram a rivalizar e até se sobrepor à
economia, dependendo do caso.
Com base em tudo isso, sua
tese no livro de que apenas parte da sociedade está polarizada não fica
insustentável?
É importante separar. O que mostro, com
dados, é que de fato houve em 2018 e 2022 duas viradas: uma polarização à
direita, depois à esquerda. Desde 2022, a rejeição é recíproca: lulista abomina
Bolsonaro, bolsonarista abomina Lula. Isso é uma dimensão da relação que as
pessoas têm com seus políticos favoritos, mas não posso transformar isso numa
disputa ideológica. Quando cruzo com outra variável, que é a de interesse por
política, vejo que pouca gente é radicalizada e ativa na relação com a
política, apenas 18%. Quando falamos em polarização, parece que todo mundo que
não gosta de um ou de outro é alguém que acompanha política, que está perdendo
amigos por isso. Mas isso é parte pequena do Brasil.
Por que, então, há uma
resiliência tão grande da divisão entre Lula e família Bolsonaro nas pesquisas?
Porque as outras opções não aparecem de fato.
Flávio virou abrigo para os eleitores que não gostam de Lula e do PT. Não tem
um candidato natural, jovem, relevante. Se o Tarcísio de Freitas estivesse
livre para ser candidato, talvez isso voltasse a existir. Outros governadores
mais jovens e modernos, como Eduardo Leite e Ratinho, ficaram pelo caminho.
Como a direita se organizou com muita força em torno de Bolsonaro e ninguém
ocupou esse espaço, a rejeição a Flávio foi diminuindo diante da possibilidade
de ser o único nome competitivo. Beneficiou-se da inércia. É a primeira eleição
em que não há candidatos de centro. É Lula contra a direita.
Com base no diagnóstico das
mudanças do país, quais clivagens são mais decisivas para entender o voto?
Em 2018, houve uma inflexão em relação às
quatro eleições anteriores, nas quais o PT tinha sido vitorioso em praticamente
todos os segmentos de idade, gênero, escolaridade, renda. Não existia um voto
diferente entre homens e mulheres. Já Bolsonaro teve uma taxa muito menor entre
as mulheres. Em 2022, essa divisão de gênero se aprofundou, com Bolsonaro
conquistando forte apoio dos homens, e Lula, das mulheres. Chego a dizer no
livro que a eleição do Lula se deve ao voto delas.
O senhor também dá bastante
ênfase à mudança nos recortes por nível educacional.
Também começa a aparecer isso em 2018: a
virada dos eleitores de ensino médio completo em direção a Bolsonaro, e os de
ensino fundamental continuam o grande esteio de Lula e do PT. Tem ainda a
dimensão racial, com divisão entre pretos e brancos, e de religião, sobretudo
com a virada de evangélicos à direita. Começo a me perguntar se isso veio para
ficar como algo mais fundo da política brasileira ou se é algo mais pessoal,
pela presença de Bolsonaro e suas idiossincrasias. Com Flávio candidato, não
imagino que mude.
Como as mudanças em 20 anos
dificultaram a vida de Lula?
Há uma dificuldade clássica, já muito
comentada, que é a virada dos evangélicos, porque se tornaram um grupo
relevante da sociedade. Destaco de novo o segmento de ensino médio, os
eleitores que não foram para a universidade, que em 2018 e 2022 deram uma
rejeição muito forte ao PT. A hipótese mais plausível é de que são eleitores
mais jovens, do sexo masculino e moradores de regiões metropolitanas. Daí
podemos imaginar que talvez estejamos diante de fenômenos como
empreendedorismo, desvalorização da CLT e do diploma aniversário. Lula ainda
fala muito para o segmento de baixa renda, que está encolhendo
demograficamente.

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