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Uma defesa da função utópica no pensamento marxista a partir de Ernst Bloch, demonstrando que a esperança é uma capacidade cognitiva orientada para o “ainda-não-ser” do mundo
1.
Em suas origens, o materialismo histórico
censurou o utopismo como produto ideológico, como idealismo sobre a construção
da harmonia social a despeito da compreensão do sistema econômico, dos
interesses antagônicos e da luta de classes. O ideal, a fé na razão e o
otimismo de Henri de Saint-Simon, Joseph Fourier e Robert Owen eram cegos para
a inércia de uma sociedade replicadora insaciável.
Com justiça, Karl Marx e Friedrich Engels
buscaram contrapor essa ingenuidade iluminista à compreensão das determinações
concretas que constituíam as leis férreas de um sistema capitalista capaz, afinal,
de mantê-lo em funcionamento até os dias de hoje, não importando todos os
projetos bem-intencionados que tenham se contraposto a ele no curso dos últimos
dois séculos.
Mas o risco de abandonar a projetividade e a especulação utópica é recair no fatalismo, na adesão resignada ao curso mecânico do mundo. No século XX, tal “realismo” concorreu para os sucessivos desastres do pragmatismo de esquerda, como a capitulação da socialdemocracia europeia ao social-chauvinismo e a conivência de parte da esquerda com os gulags. Desde as Teses Sobre Feuerbach, Karl Marx não gostaria de suprimir o ideal em favor do material, mas de compreender ambos como parte da “atividade sensível humana”, pois “a discussão sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica”.[i]
A dimensão especulativa faz parte do mundo tanto quanto o seu aspecto material. O aspecto dinâmico da atividade humana se vincula à faculdade de assimilar a objetividade do mundo e de planejar, programar e delinear em sua mente a intervenção e modificação que deseja fazer no mundo, afinal “o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo de trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador”.[ii]
2.
O marxismo de Ernst Bloch sustenta essa
imbricação entre a fantasia e a realização: o colocar-se em ação da imaginação
é parte da dialética que constitui a história. Ernst Bloch propõe uma
hermenêutica positiva da cultura, que busca compreender o modo como a
idealidade antecipa o futuro. O aspecto ideal participa da realidade ao
prefigurar os desdobramentos do mundo humano, que está sempre em construção.
A função utópica, assim ressignificada, é o
impulso inconformista humano que o instiga a sempre buscar transformar a si
mesmo e a seu entorno para criar bem-estar. Os sonhos diurnos são aqueles em
que se fantasia e devaneia com consciência de que o mundo não está pronto, de
que ele pode e deve ser aperfeiçoado.
Dessa forma, a esperança não é apenas uma
emoção que se contrapõe ao medo, mas uma capacidade que é o avesso da memória,
a faculdade de fabular o ainda-não-ser do mundo. A esperança é uma direção
cognitiva que guia a exploração das possibilidades em aberto no mundo e
constitui o ímpeto inevitável para aquilo que segue irrealizado nas brumas do
futuro.
O princípio esperança não é apenas uma
prerrogativa ontológica dos seres humanos, mas uma necessidade objetiva no
devir do mundo. O excedente de possibilidade no real faz com que a característica
decisiva da história seja a sua incompletude, a abertura que nos fascina no vir
a ser, o poder encantatório que atrai nas possibilidades de reconfiguração do
mundo.
É o que fomenta a ação humana nas artes, na
ciência, no amor ou na política como se estivéssemos constantemente arrebatados
pelo desejo de sermos diferentes de nós mesmos e de ver a alteridade ganhar
corpo no mundo. Se, por um lado, a quebra de expectativas, o inusitado e a
ruptura da linearidade são elementos desagradáveis no cotidiano, por outro
lado, “é de estranhar a facilidade com que nos deixamos interromper pelo novo,
pelo inesperado”.[iii]
O jornal de hoje é superestimado, o jornal de
ontem é subestimado, porque a boa nova promete se anunciar num instante
qualquer do porvir, sem aviso prévio.
Que algo feliz se desencadeie magicamente,
talvez até o melhor dos mundos, é claramente uma abertura para a ideologia. Um
encontrão acidental que progride em paixão bem-sucedida, embora possível, não
deve ser o modelo para as fantasias que requerem tanto delírio quanto
ponderação e planejamento consciente. Ernst Bloch sabe que a sedução do
ainda-não é capaz de enganar e ludibriar e compreende que a utopia pode ser a
isca para os sofismas ideológicos, tal como o tolo final feliz hollywoodiano
que alimenta a fé passiva numa vida diferente num mundo igual.
Por outro lado, o pessimismo que descarta toda esperança “promove não menos os interesses reacionários do que o otimismo condicionado artificialmente; este último pelo menos não é tolo a ponto de não acreditar em absolutamente nada”.[iv]
3.
Crença e descrença absolutizadas são duas
faces do fatalismo diante do mundo. A filosofia da esperança sabe que o mundo
tal como existe não é verdadeiro e os fatos como tais são a expressão reificada
de um momento do processo. Se tal antropologia filosófica pode ser acusada de
padecer de um “déficit histórico”, pois não se detém na periodização da utopia
e da ideologia, ao mesmo tempo, o caráter abstrato e universalista dessa teoria
imuniza Ernst Bloch em relação à apologia da ordem existente.[v]
A despeito de equívocos políticos
individuais, o filósofo comprovou sua independência de espírito ao não atrelar
sua filosofia ao espaço nacional, ao Estado soviético ou às instituições
oficiais de seu tempo, pois a utopia “ainda não se encontra, como infelizmente
pode muito bem ser comprovado, em lugar nenhum daquilo que ganhou existência”.[vi]
Uma adesão ao existente teria recaído
justamente naquilo que ele repudiava como “quietismo contemplativo”, que vai da
fé socialdemocrata no progresso automático na Segunda Internacional ao próprio
dogmatismo stalinista. Hoje a militância a favor da passividade, por assim
dizer, encontra-se orientada mais à direita – os neoliberalismos progressistas
e conservadores. A insurgência utópica, por sua vez, está majoritariamente
deslocada para aceleracionismos que consideram o colapso e a decadência como
formas inescapáveis de desenvolvimento da sociedade.
O “iluminismo sombrio” considera a liberdade,
a igualdade e a fraternidade miragens históricas que devem ceder à ascensão
utópica da tecnocracia, do pós-humano e do maquínico. O desejo neorreacionário
é um desejo de catástrofe, da eficiência a qualquer custo, da hierarquia e da
autoridade como objetivos supremos, sem a redenção fantasmagórica dos
reacionários tradicionais de retorno à comunidade e à religião.
O capitalismo realmente existente se torna a
antecipação de um futuro tecnocrático pós-liberal, porque a liderança do CEO e
o controle algorítmico já são os embriões das cidades-estados corporativas, que
superariam a burocracia e o populismo através da competição e da eficiência.
O caráter tecno-imperial da nova sociedade, o hipercapitalismo, é a transformação da função utópica em distopia justamente por seu colamento ao real, por sua transcendência insuficiente em relação ao que está dado numa era de catástrofes. A atração pelo sujeito automático do capital deve ser compreendida como aceitação da impotência, pois a denúncia histérica da extrema direita contra o comunismo sempre foi resultado do desespero e da indignação diante de uma realidade que se apresenta como imutável.
4.
O desespero se volta contra a autêntica
utopia, pois a vê como falsa promessa e prefere se identificar com o real; a
indignação converte os elementos mais cruéis da ordem em ideal porque a
fantasia de “ir até o fim” devolve alguma perspectiva de controle aos indivíduos.
As ideologias sombrias da burguesia parecem
apenas acelerar o trem desgovernado da história, mas, no espírito de Ernst
Bloch, devemos encontrar nos produtos mais degradados da imaginação e nas suas
fantasias tétricas a confissão do desejo de movimento, a expectativa pelo novum.
A ânsia (auto) destrutiva da extrema direita
é a última consequência de um sonho mal sonhado e nos cabe decifrar histórica e
socialmente quais são as condições materiais em que se engendram os pesadelos
neofascistas contemporâneos.
Quem melhor e mais seriamente pôde cumprir
essa tarefa a partir da herança de Ernst Bloch foi Fredric Jameson, que buscou
interpretar o aspecto utópico da ideologia não por otimismo vazio, mas como
método para compreender os tijolos fundamentais que constituem o universo
simbólico. O capitalismo tardio tornou clara a metástase da ideologia por todas
as instâncias da vida social, a preponderância da opressão às resistências da
natureza e do inconsciente, de modo que, se ainda há utopia, também ela
subsiste sob o jugo da opressão.
Revertendo a célebre passagem de Walter
Benjamin de que “nunca houve monumento de cultura que não fosse também um
monumento de barbárie”,[vii] Fredric Jameson afirma que não há ideologia que não
guarde a utopia dentro de si. O fundamento da ideologia teria sido a corrupção
da solidariedade de classe como recurso dos dominados contra a violência da
exploração, pois o aspecto coletivo dos ideários reacionários deve-se à
percepção dos “perigos políticos dessa união potencial da população
trabalhadora” e “geram a imagem refletida da solidariedade de classe entre os
grupos governantes (ou donos dos meios de produção)”.[viii]
A hermenêutica positiva de Ernst Bloch junto
à hermenêutica negativa da crítica da ideologia nos habilita a perceber a
ideologia para além de seu conteúdo explícito, isto é, permite interpretar os
discursos odiosos em defesa da hierarquia e repressão como deturpação do sonho
antecipatório de coordenação coletiva da vida social.
Hoje é preciso fazer com que os projetos
apocalípticos e escatológicos da extrema direita se tornem uma imagem aversiva
que nos faça reagir. Numa inversão histórica, atualmente é da distopia que
devemos extrair o ímpeto para construir nossas próprias imagens de futuros
alternativos.
*Thomas Amorim é doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é professor substituto de sociologia na Universidade de Brasília (UnB).
Notas
[i] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich, A Ideologia
Alemã, São Paulo: Martins Fontes, 2001.
[ii] MARX, Karl, O Capital: Livro 1 – O processo de
produção do capital, São Paulo: civilização Brasileira, 1998, p. 211–212.
[iii] BLOCH, Ernest, Princípio Esperança 1, São
Paulo: Contraponto, 2005, p. 47.
[iv] Ibid., p. 432.
[v] VEDDA, Miguel; SAUERLAND, Karol, Tendencias y
latencias de un pensamiento, Buenos aires: Herramienta, 2007.
[vi] BLOCH, Princípio Esperança 1, p. 310.
[vii] BENJAMIN, Walter, Teses “Sobre o conceito de
história”.
[viii] JAMESON, Fredric, O inconsciente político. A
narrativa como ato socialmente simbólico, São Paulo: Ática, 1992, p. 299.

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