Folha de S. Paulo
Livro narra trajetória de Luarlindo Ernesto,
do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje
Aos 82 anos, ele é capaz de desvendar o
mistério do dinheiro investido no filme "Dark Horse"
No romance "O Piano e a Orquestra",
de Carlos
Heitor Cony,
o narrador está obcecado por uma vaca. Uma vaca que fala em perfeito francês:
"À votre service".
Ele só a encontrara uma vez, empacada no meio da estrada, e gostaria de revê-la e mergulhar de novo na doce alucinação. Só uma pessoa no mundo poderia ajudá-lo: o repórter policial Luarlindo, cuja fama era saber de tudo e ser capaz de descobrir qualquer coisa. Em troca de alguns chopes, o jornalista dá o serviço. A vaca se escondia no bairro do Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro.
Revelar o mocó da vaca falante foi moleza
para Luarlindo. Veterano do Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, sempre furando a
concorrência, em seu currículo constam, além de três prêmios Esso, coberturas
mais difíceis e traumáticas: a busca pela corpo da socialite Dana de Teffé, o
incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, a morte do detetive Milton
Le Cocq, a caçada ao bandido Cara de Cavalo, as fugas cinematográficas do
assaltante Lúcio Flávio, o surgimento dos esquadrões da morte, o sequestro do
menino Carlinhos, o atentado a bomba no Riocentro, a captura do mafioso Tommaso
Buscetta no Brasil.
Luarlindo Ernesto, que inspirou o personagem
de Cony,
acaba de ganhar uma biografia. Em "O Último Repórter dos Anos de
Chumbo", Elenilce Bottari narra com rigor histórico os episódios da
trajetória de Luar, como é conhecido, mas de maneira descontraída, como se
fosse uma conversa de bar, com pitacos do próprio biografado: "Falei com o
Buscetta, mas a única coisa que o italiano me disse foi: ‘A pronúncia do meu
nome não é busqueta. É buceta mesmo’".
Aos 82 anos, Luarlindo mantém o faro de quem
começou a trabalhar na Última Hora aos 14, quase de calças curtas, como foca do
repórter sensacionalista Amado Ribeiro. Testemunha e agente das transformações
no jornalismo, do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje, se
pautado pela chefia, ele é capaz de descobrir onde está escondida a grana do
filme "Dark Horse".
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