Folha de S. Paulo
Recurso à Justiça é estratégia defensiva que
traz vantagens e limitações
Medida pode aumentar perigosamente o poder
dos 11 magistrados do STF
A Parada LGBT+ é
hoje o único movimento progressista que mobiliza e leva multidões de
brasileiros às ruas. Talvez por ser singular mistura de alegria de festa com
afirmação bem-humorada de identidade e combativo engajamento por direitos.
Outros movimentos mais tradicionais do campo da esquerda —por melhorias urbanas; pelo acesso a moradia e à saúde; contra a discriminação racial ou de gênero; ou por direitos trabalhistas, campo de atuação sindical— certamente continuam aí. Há mais de uma década, porém, disputam as ruas e praças com a extrema direita —quase sempre em desvantagem. O mesmo se pode dizer do PT, cuja militância se confundia em boa medida com ativistas sindicais e de organizações populares. E mais ainda das agremiações partidárias que orbitam em torno da legenda de Lula.
Haverá boas explicações para a dificuldade
que o partido e seus movimentos encontram para mobilizar multidões em torno de
agendas menos ou mais ambiciosas. Entre elas, a proximidade com o governo
federal ocupado pela coalizão encabeçada pelo PT, ensejando que lideranças
sociais e ativistas partidários fossem sugados pela máquina pública.
A verdade é que desde a vitória de Bolsonaro,
em 2018, a reação extraparlamentar progressista às ameaças à democracia e aos
direitos fundamentais não se deu prioritariamente nas ruas. As esquerdas
assumiram a judicialização como estratégia principal.
Entre 2019 e 2022, usando instrumentos
previstos na Constituição —em especial a Ação Direta de Inconstitucionalidade
(ADI) e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF)—, buscaram
barrar no Supremo Tribunal Federal as iniciativas mais reacionárias do
Executivo ou do Legislativo.
Naquele período, foram protocoladas cerca de
2.000 ADIs e 600 ADPFs, que trataram de providências relativas à epidemia de
Covid 19; meio ambiente e fiscalização ambiental; proteção de povos indígenas
durante o surto; operações policiais nas favelas; cerceamento à liberdade de
expressão; decretos sobre uso de armas de fogo.
Embora não tendo sido os únicos, os partidos
de esquerda foram os principais motores da judicialização. Provocados por movimentos
sociais e organizações não governamentais, tornaram-se os maiores litigantes,
destacando-se pela frequência de seus recursos à Suprema Corte: pela
ordem, PSOL,
Rede, PDT,
PT, PSB e PCdoB. Não
estando habilitadas por lei a usar aqueles instrumentos, as ONGs frequentemente
participaram das ações, contribuindo com pareceres técnicos.
Para as forças progressistas, a
judicialização é estratégia defensiva com vantagens e limitações: podem deixar
em segundo plano a organização e a mobilização social em defesa de suas causas.
E se beneficiam da diminuição da assimetria de poder quando a disputa se
instala no terreno da interpretação legal.
Por outro lado, o recurso à Suprema Corte, além de aumentar perigosamente o poder de seus 11 magistrados, acaba delimitando a agenda das esquerdas. Esta fica reduzida à batalha pelo programa inscrito na Carta —dispensado o debate de ideias. Especialmente de ideias novas para problemas ausentes do horizonte dos constituintes de 1988. E se algo não falta neste país são problemas.
*Professora emérita da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro
Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

Nenhum comentário:
Postar um comentário