terça-feira, 23 de junho de 2026

Esquerdista or not esquerdista? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula dizer que ‘nunca foi de esquerda’ muda o quê, na eleição, nas Américas e no mundo?

Não é novidade o presidente Lula dizer agora que “nunca foi esquerdista”, mas o local, o momento e o ambiente político da América do Sul indicam que, desta vez, há uma clara intenção eleitoral, para ficar bem com o grande capital no Brasil e no mundo. Logo, foi um movimento calculado, em pleno G-7, o grupo dos países mais ricos.

Já em agosto de 2003, durante viagem à Venezuela, no seu primeiro mandato, Lula reagiu a uma pergunta minha com ênfase: “Em toda minha vida, nunca gostei de ser rotulado de esquerda e, quando me perguntaram se eu era comunista, eu respondi: ‘Sou torneiro mecânico’”.

A fala de Lula contra o “rótulo de esquerda” foi ao lado do então presidente venezuelano, Hugo Chávez, temido pelo capital e pelas elites no Brasil, e pouco mais de um ano depois da “Carta aos Brasileiros”, em que, como candidato da esquerda, ele quis acalmar a direita, assumindo o compromisso de manter contratos nacionais e internacionais. Na “carta” e na fala em Caracas, Lula quis dizer algo como: “Sou de esquerda, mas não muito”.

Dando um salto de 23 anos, chegamos a um contexto muito diferente, com o mundo comandado por tipos como Trump, Putin, Netanyahu e o Brasil transformado numa ilha na América do Sul, onde sete países estão nas mãos da direita e só o Uruguai também à esquerda, além dos pequenos Suriname e Guiana.

A eleição na Colômbia, historicamente de direita, aliada e base para operações militares dos EUA, é significativa. A guinada à esquerda durou pouco, apenas os quatro anos de Gustavo Petro, cujo candidato foi derrotado pelo advogado e empresário Abelardo de la Espriella, ou “El Tigre”, um “outsider” milionário sem passagem pelo poder público, cheio de elogios para Trump e Milei.

Assim como Keiko Fujimori no Peru, a vantagem de Espriella foi de menos de 1% dos votos, confirmando que a polarização política não é exclusividade do Brasil, pelo contrário, perpassa a região e se espalha mundo afora, mas, pequena ou não, essa diferença vem favorecendo a direita.

Como o próprio Trump, o senador Flávio Bolsonaro comemorou o resultado na Colômbia, como “um triunfo das agendas de direita na América Latina” e, num post, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), foi direto: “Peru e Colômbia endireitando. Em outubro, será o Brasil”.

Quem vota no Brasil, porém, são os brasileiros e há mais incerteza do que certezas na eleição. Pelas pesquisas, Lula tem uma posição razoavelmente confortável no primeiro turno, mas sua margem no segundo é apertada e a direita nacional vai se unir. Dizer que “nunca foi esquerdista” muda alguma coisa?

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