O Globo
Os economistas discordam sobre a elevação da
meta de inflação, mas concordam sobre a necessidade do ajuste fiscal de forma
urgente
É uma boa ideia aumentar a meta de inflação para 4,5%, em vez dos atuais 3%, ou essa é uma proposta inflacionista? O economista Sérgio Werlang, que implantou o sistema de metas de inflação em 1999, defendeu que seja elevada. Arminio Fraga, que era presidente do Banco Central quando foi adotado o sistema, discorda de Werlang. Prefere que se discuta o “alongamento da convergência”, ou seja, que o prazo para que a meta seja atingida seja maior do que os atuais 18 meses. Arminio teme uma crise de crédito. O economista Bráulio Borges me disse que a mudança da meta é a discussão que ninguém gosta de ter, e a chamou de tabu.
A ideia de mudar a meta pode parecer
equivalente a trocar o termômetro para ver se a febre cai. Em ano eleitoral,
com a inflação em alta, ameaçando ser 5%, e com o governo federal, estados e
municípios ampliando os gastos, a proposta pode parecer uma forma de aceitar
mais inflação. O economista Sérgio Werlang, em entrevista ao Estado de S.Paulo
de ontem, defendeu a mudança com o argumento de que “a meta de inflação de 3%
não tem a menor condição de funcionar”.
Arminio Fraga, que foi chefe de Werlang no
Banco Central, na época da implantação do sistema de metas, há 27 anos, não
gosta da ideia.
— O Sérgio (Werlang) é competente, mas não
acho que é uma boa proposta. Normalmente quando se adota o aumento da meta o
resultado é instantaneamente aumentar a inflação. O melhor seria, e também
correndo algum risco, alongar um pouco o horizonte de convergência. Mas isso na
expectativa de que a política fiscal vai entrar em campo, porque senão a gente
está num caminho que vai acabar mal.
Bráulio Borges acha que nunca se fez uma
discussão adequada sobre o tema. A meta era 4,5% e foi reduzida para 3% no
governo Michel Temer. Se a meta fosse 4,5%, a inflação estaria abaixo no
chamado “horizonte relevante”, ou seja, 18 meses à frente, e os juros poderiam
cair mais. O Banco Central mira esse tempo de um ano e meio ao tomar suas
decisões. Borges acha que a discussão sobre a mudança da meta será bem-vinda
quando vier.
— Nunca se fez uma discussão séria e adequada
para definir se 3% realmente é uma meta para um país como o Brasil que tem o
fiscal ainda muito frágil, que tem várias outras questões de indexação. Em
2018, tomou-se a decisão de reduzir a meta para 3%. Muita gente hoje acha que
foi um erro, inclusive no mercado financeiro. Mas essas pessoas preferem não
falar publicamente, pelo medo de serem taxadas de heterodoxas, de
inflacionistas. Eu sou favorável ao regime de meta de inflação, sou favorável à
autonomia do Banco Central, mas acho que a nossa meta de inflação de 3% é muito
baixa.
Na verdade, cada um tem um ponto. Pode-se
discutir a mudança, mas agora seria ilusório e arriscado. No fundo tanto a
proposta de Werlang (subir a meta) quanto a de Arminio (alongar o horizonte de
convergência) permitiriam reduzir a Selic. Porém, a forma mais eficiente de
cortar juros é diminuir o gasto público. E as despesas têm aumentado este ano.
O país terá que fazer um ajuste fiscal no ano que vem. Arminio teme uma crise
de crédito, ou seja, uma onda de inadimplência generalizada.
— Do lado do crédito, a coisa começou com as
famílias, tem aí 80 milhões, 90 milhões de inadimplentes, isso é um número
estratosférico. Pegou o varejo na sequência. No fim, essa crise de crédito vai
chegar no governo. A sequência é: famílias, varejo, empresas em geral e
governo.
O economista Mansueto Almeida, em entrevista
recente, me disse que incluindo tudo, mesmo os itens que o governo tem deixado
fora da conta fiscal, o déficit primário deste ano será de 0,4% do PIB. No
primeiro ano, foi de 2,4%. Há contas mais pessimistas no mercado, e há uma
grande concordância de que o país teria que ter superávit primário.
Em resumo, os juros estão altos e isso
alimenta uma crise de crédito, o que é muito perigoso. Alguns economistas
admitem que houve avanços na política fiscal, como o arcabouço, por exemplo. Só
que tantos itens de despesa têm ficado fora da estatística que o instrumento
está perdendo a credibilidade. Entre eles, o gasto tributário, que precisa ser
reduzido. Voltar a meta de inflação para 4,5% pode até ser uma discussão relevante,
mas não em ano eleitoral, e não sem enfrentar o problema das contas públicas,
como o próprio Werlang alertou.

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