Folha de S. Paulo
Em estatísticas e fria observação, nível da
seleção está pelo menos entre os oito melhores
Ignorância e desordem desperdiçam talentos;
Brasil não melhorou nem contra o Haiti
A seleção do
Brasil é a sétima mais valiosa das 48 da Copa. Fica atrás de
Inglaterra, França, Espanha, Alemanha, Portugal e Holanda. No oitavo lugar,
Argentina. Nessa conta, a seleção
estaria nas quartas, disputando vaga nas semifinais.
"Esse time é muito ruim", dizem
nossos desânimos ou pânicos comicamente furiosos, vale muito, não apenas no
mercado.
A conta desse ranking é do CIES (Observatório
do Futebol do
Centro Internacional de Estudo do Esporte), centro de pesquisa que fica na
Suíça, que tem parcerias com universidades, Fifa e
pós-graduação.
O valor das seleções calculado pelo CIES não é a soma do dinheiro pago pelas transferências de jogadores entre clubes. Considera custo do "passe", mercado, idades, minutos jogados, desempenho, nível da liga e do time em que jogam etc.
Se passar para a próxima fase, o Brasil pega
Suécia, 15º lugar nesse ranking, Holanda (9º) ou Japão (23º). Rivais da fase de
grupos, Marrocos está em 14º, Escócia, 29º, e Haiti, 39º.
Em contas simples, como a soma do valor dos
salários dos jogadores, o Brasil fica em quinto lugar (dados de várias fontes
compilados pelo jornalista), atrás de Portugal, França, Inglaterra e Argentina;
Alemanha, Espanha e Holanda vêm em seguida. O valor comparativo da folha
salarial pode ser distorcido por poucos salários enormes. Tirando os dois
maiores pagamentos de cada seleção, a ordem fica assim: Inglaterra, França,
Alemanha, Espanha, Brasil, Portugal, Holanda e Argentina.
A seleção brasileira tem valor no
mercado da bola, que pode até errar por modinha, "má fase"
de jogador, "comissão" ou acaso, mas precisa pagar o quanto o jogador
em tese vale, pela eficiência ou pelo show. Trata-se de um negócio.
Valores monetários ou rankings técnicos,
claro, explicam parte miúda da história, ainda mais em torneios curtos e
instáveis como Copas. E um grupo de
atletas valiosos não faz um time. Em um exagero caricato, pode ser
que todos os jogadores valiosos sejam apenas da defesa ou do ataque ou não
sirvam para arranjo eficiente.
Arranjar um time, escalar, treinar e
conscientizar, é essencial. Se diz que o Brasil passou quatro anos "sem
montar um time". Mas não se monta um time por quatro anos, nem em clubes
organizados. Nesse período, uns envelhecem, jovens bons amadurecem, estrelas de
brilho breve desvanecem, outras brilham no momento certo.
Não tivemos foi projeto de pensamento de jogo
baseado em um grupo estável de elite, com testes organizados de jovens. Não
temos centros fortes de formação de atletas ou treinadores ou de estudos
técnicos em geral, aquela ignorância nacional. Campos e dirigentes são
indizíveis. Etc.
Isto posto, o último gênio
que tivemos foi Neymar, que deu no que deu. Já tivemos superlotação
de talentos em posições como meias, atacantes e laterais. Mas a genialidade parece
escassear no mundo, assim como nossos jogadores maneiristas, barrocos, rococós
ou outra metáfora estética precária que nomeie o estilo bailarino e malabarista
de que gostamos.
Entendidos dizem que gente boa é desperdiçada
por técnicos e direções atrasados. Que a fuga de talentos baixa o nível de jogo
doméstico e, pois, a formação dos jovens.
Fato é que estatística e observação mostram
brasileiros jogando na elite mundial, mais de meia dúzia deles. Porém, o
resultado prático, no mínimo por baixa organização e inteligência, é uma
maçaroca em que até o talento se afoga. No jogo com o
Haiti continuou assim, não se iludam.
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