domingo, 21 de junho de 2026

Não acreditar no que se vê, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Relato de óvni faz pensar em papel do jornalismo institucionalizado

O jornal ainda é o principal motor de credibilidade pública

Duas posições sobre a relação entre ver e crer parecem ganhar relevância diante dos assombros nas redes sociais. Numa atribuída a Nietzsche, ele desacredita em fantasmas, não por serem invisíveis, mas visíveis demais. Noutra, diz Engels que o fato de não se verem os alegados espíritos, recorrentes em sessões esotéricas nas capitais europeias no século 19, não constituía prova alguma: ver seria apenas uma exigência do empirismo radical.

Essa abordagem é suscitada pela repercussão de um vídeo postado com imagens de óvni no quintal de um sitiante, à luz do dia, no interior paranaense. Seria mais uma história de ET, dessas que os algoritmos costumam direcionar para aficionados do assunto. Mas tudo era por demais visível, assim como plausíveis a reação de medo e depoimentos do sitiante. Observadores descartaram a hipótese de montagem.

Atitude natural dos bem-informados pelos padrões habituais é a de perguntar como se pode dar atenção a uma coisa dessas em meio à gravidade das crises conexas que permeiam o país e o mundo nessa fase aguda do capitalismo global, em que o paradigma do império americano é de opressão socioeconômica e ataque ao espírito nacional. Conservador, o senso comum estabiliza a consciência, mas interpreta com lugares-comuns o que não compreende de imediato.

Uma resposta com matiz junguiano, logo com o viés do simbolismo inconsciente, seria argumentar que uma crise psíquica consequente a essas mutações pode responder por imagens de salvação e unidade, sinais de uma busca de transcendência para superar a ansiedade coletiva (Carl Jung em "Um Mito Moderno sobre Coisas Vistas no Céu").

O problema dessa explicação começa com o fato de que imagens psíquicas não têm substância reprodutível em fotos ou vídeos. Resta a hipótese de fake news, já suspensa pelo próprio governo americano, que vive publicizando óvnis. Fato é que o sitiante, além de absurdos insultos e ameaças, recebeu milhões de visualizações. Ou seja, possibilidades de monetização, muito maiores do que as de um outro que descobriu petróleo em sua terra. No mundo das redes, coisa vista no céu vale mais do que ouro negro no subsolo.

Mas nada faz prova de fé do que se vê. Bem faziam Nietzsche e Engels ao suspeitarem da visão como evidência absoluta. A assombração volante, com luzes e barulhos esquisitos, reforça o marketing do filme de Steven Spielberg, recém-lançado. Fora das redes, porém, quanto mais se vê, menos se acredita. E há quem diga que, se verdadeiro, teria aparecido no jornal ou no noticiário televisivo. O consenso midiático tem a última palavra.

Essa descrença aporta algo de valioso à dinâmica da confiança coletiva, traduzida no jornalismo institucionalizado. De um lado, mostra que o jornal e seu público constituído estão afastados do imaginário mobilizador de milhões. De outro, indica que jornalismo, por mais duvidosas que sejam as opiniões editoriais, ainda é o principal motor de credibilidade pública. Embora jornalista nenhum esteja preparado para o eventual choque ontológico de um ET.

 

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