quinta-feira, 11 de junho de 2026

Falta rumo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Não é nada confortável a situação neste instante dos grupos políticos que se articulam para impedir a reeleição de Lula. Ele é hoje um político em situação de rejeição altíssima, porém similar à do nome do seu principal adversário.

Em boa parte, isso se deve ao hábito de “fazer política” perseguindo o ponteiro das pesquisas de intenção de voto. Claro que elas são relevantes como ferramenta tática, mas trata-se aqui de problemas estratégicos.

A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro consolidou-se em função de uma série de pesquisas, apesar de as vulnerabilidades dele serem bem conhecidas ainda antes dos áudios com Vorcaro. O que elas evidenciavam não era, necessariamente, um apoio ao nome, mas um desejo enorme de acabar com décadas de lulopetismo no poder.

Abraçou-se sofregamente a frase “só ele tira o Lula de lá”; portanto, tapam-se o nariz, os olhos e, principalmente, os ouvidos, e vamos cuidar do resto depois. Quando o que importa é exatamente “o resto”: tirar o Lula para quê?

Era bastante óbvio que, se pesquisas impulsionam, também esmagam – especialmente quando resultados negativos são provocados pelo próprio candidato. Deixando os grupos de centro-direita (menos os bolsonaristas) numa espécie de orfandade. Sentem que perdem o que seria um nome imbatível naquelas antigas pesquisas e não conseguiram criar bandeiras além do antipetismo.

A noite da votação do fim da escala 6x1 na Câmara foi bom exemplo desse fenômeno do curtoprazismo político. Votaram a favor até deputados que presidem frentes empresariais, todos munidos de “trackings”, indicando que 70% do eleitorado apoiava trabalhar menos e ganhar a mesma coisa. É o que acontece quando se deixa de fazer política.

Modelos estatísticos consagrados atribuem ao incumbente com as atuais taxas de aprovação/desaprovação de Lula um favoritismo de 55% (consultoria Eurasia), mas num quadro volátil no qual a parcela do eleitorado capaz de definir o resultado é pequena. O problema para as forças que querem derrotar Lula é o fato de estarem, no momento, na dependência de fatores que não controlam.

Dois chamam a atenção, e estão interligados. O primeiro é a situação geopolítica internacional e suas consequências econômicas. Elas sugerem mais inflação no Brasil, especialmente no setor de alimentos, e dificuldades de diminuir a sufocante taxa de juros. Nesse cenário, o incumbente perde vantagens, importando pouco o adversário.

Se o grande problema para Lula foi sua incapacidade de vender um sonho de futuro melhor, a oposição está se defrontando com isso também. Uma campanha política que dependa muito de revelações trazidas pela polícia, como ocorre agora, acaba nivelando tudo por baixo e, no caso de Flávio, diluindo diferenças. Não se vê um rumo.

 

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