Folha de S. Paulo
Eu fico nu, rolo no chão, luto com o Demo e
depois escrevo, revelou o escritor
'Grande Sertão: Veredas' se valeu de
conversas com vaqueiros e da leitura de Goethe
O encontro está narrado na excelente biografia de João Guimarães Rosa escrita pelo jornalista
Leonencio Nossa.
Em 1966, o escritor viajou a Nova York para participar do 34º Congresso Internacional do Pen Club, ao lado de Arthur Miller, Saul Bellow, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa. O poeta Haroldo de Campos estava lá, e Rosa resolveu conversar com ele sobre sua experiência com o Diabo:
"Quando me vem o texto, eu fico nu, rolo
no chão, luto com o Demo de madrugada no meu escritório, e depois, naquele
contexto, naquele impacto, eu escrevo".
Para Haroldo de Campos, o Demo de Guimarães
Rosa —que aparece no "Grande Sertão: Veredas" com
dezenas de nomes (o Arrenegado, o Cramulhão, o Coisa-Ruim, o Pé-Preto, o Coxo)—
não era uma simples metáfora da personificação do mal, mas uma figura que
estava presente no processo de criação do autor.
Na cena em que o jagunço Riobaldo se dirige a
um lugar ermo de nome assombrado, Veredas-Mortas, com a intenção de vender sua
alma, não fica claro para o leitor se ele aceita o pacto. Na redemunho do
personagem, o Diabo "vive dentro do homem", é o "homem
arruinado", o "homem dos avessos". Portanto, é legítimo material
de inspiração artística —que mal haverá nisso?
Rosa cercou Satã pelos sete lados. Ouviu de
vaqueiros de Minas e Bahia histórias endiabradas e as recontou a seu modo,
reinventando a linguagem.
Um de seus primeiros contos é uma adaptação
de "O Demônio da Garrafa", de Stevenson. O influxo está nos monólogos
filosóficos e poéticos do "Fausto" de Goethe. E também em
"Doutor Fausto", de Thomas Mann, alegoria sobre a decisão da Alemanha
de abraçar o nazismo,
à qual o escritor assistiu de perto como diplomata em Hamburgo entre 1938 e
1942.
Em 1952, Rosa comprou a prestações um
apartamento entre Copacabana e Ipanema, perto do Arpoador. Com o tempo, subiram
outros prédios de um lado e de outro. Do escritório onde ele escreveu
"Grande Sertão: Veredas", restou apenas a vista de parte do mar que
bate num estreito pedaço de areia —a Praia do Diabo.
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