terça-feira, 30 de junho de 2026

Barreira mnemônica, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Responsabilizar políticos por seus erros é um desafio para as democracias

Quando o eleitor não se lembra nem de em que votou, a tarefa fica bem mais difícil

Responsabilizar políticos pelo que eles fazem de errado é um dos grandes desafios das democracias. Não que eles nunca tenham de prestar contas. Quem está à frente do governo acaba respondendo pelo que acontece em sua gestão, às vezes até de forma meio injusta. Reeleições de presidentes ou primeiros-ministros dependem muito do desempenho da economia. Uma crise costuma interromper ou abreviar o mandato do dirigente, mesmo que ela seja totalmente exógena e ele tenha feito tudo o que era possível para reduzir seus impactos.

Pela inversa, também ocorre de governantes serem beneficiados eleitoralmente por eventos positivos sobre os quais tiveram pouca ou nenhuma participação, como uma alta de preços de commodities.

Se a responsabilização de presidentes e premiês já é precária, muito mais difícil é a de parlamentares. Em teoria, caberia ao eleitor acompanhar a trajetória de seus deputados e senadores e só renovar seus mandatos se achar que sua performance foi satisfatória. Esse tipo de responsabilização, já naturalmente difícil, encontra entre nós até barreiras mnemônicas. Pesquisa Datafolha acaba de mostrar que dois terços dos eleitores não se lembram de em quem votaram para ocupar um lugar no Congresso há quatro anos. Punições de parte desses eleitores seriam, portanto, totalmente aleatórias.

Já acreditei que esse fenômeno de esquecimento estava relacionado ao sistema proporcional que usamos para eleger deputados. A tese, porém, é desmentida pelo índice de esquecimento de senadores, que é praticamente o mesmo. Eleições para o Senado são majoritárias.

Meu palpite é que damos tanta ênfase à eleição presidencial que ela acaba ofuscando os outros pleitos. São 38% os não se recordam de em quem votaram para governador. Descasar os pleitos total ou parcialmente, como fazem alguns países, talvez minorasse e problema, mas não o resolveria.

Como sempre digo, a democracia não é boa por favorecer a escolha de bons representantes, mas por assegurar a alternância pacífica do poder.

 

 

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