segunda-feira, 29 de junho de 2026

Flávio Bolsonaro e o efeito Teflon, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

O senador não tem a capacidade do pai de manter o apoio popular apesar de suas falas e dos fatos

O senador e pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro precisa mudar de assunto – de muitos assuntos. O mais recente foi a lavagem de roupa suja em público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Flávio, nesse fim de semana, garantiu que o episódio era “página virada”. Conhecendo o histórico de brigas na família, a trégua tende a durar apenas até a próxima desavença.

Mas o problema de Flávio vai além das ambições que Michelle alimenta e do desafio de unir a família em torno do seu projeto presidencial. A verdadeira encrenca é que a dificuldade do senador em “virar a página” de situações desabonadoras se tornou generalizada.

O impacto das revelações sobre seus contatos com o banqueiro Daniel Vorcaro, por exemplo, ainda não foi superado. O mesmo vale para o estrago causado pela visita de Flávio ao presidente Donald Trump e pela atuação do seu irmão Eduardo, ex-deputado federal, nos Estados Unidos, ambas associadas a decisões do governo americano contrárias aos interesses econômicos do Brasil.

O pré-candidato do PL à Presidência está tão afoito para se desvencilhar dessa culpa que afirma ter se inscrito para apresentar argumentos a favor do Brasil em audiência pública do Escritório Comercial americano. O senador será um corpo estranho na reunião, normalmente frequentada por representantes de empresas e associações setoriais.

O mais provável é que ele acabe atrapalhando a estratégia dos especialistas e dos diplomatas. Ou, se houver uma desistência ou adiamento do novo tarifaço que ele possa exibir como conquista diplomática, não será de graça: o secretário de Estado, Marco Rubio, já expôs, por escrito, uma “oferta generosa” de Flávio de “colocar uma equipe de transição” à disposição do governo americano caso o bolsonarismo volte ao poder no Brasil.

Falta a Flávio o “efeito Teflon” de Jair Bolsonaro: a capacidade de manter apoio popular mesmo produzindo falas e fatos que para outros políticos seriam demolidores. Nele, notícias negativas não grudavam com facilidade — em alguns casos, ele até saía fortalecido.

Mas Flávio não é Jair, pois carisma não se herda, e não há nada que o pai em prisão domiciliar possa fazer a respeito, isolado que está da arena pública. Se Flávio for derrotado, poderá ser tentador para seus aliados atribuir a culpa a Michelle. Mas o verdadeiro responsável será o próprio Jair, que preferiu um sucessor do seu sangue a apostar no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), sem tantos esqueletos no armário.

 

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