terça-feira, 30 de junho de 2026

Flávio e Michelle se degladiam hoje pela liderança em 2030, por Juliano Spyer*

Folha de S. Paulo

Senador venceu batalha dos vídeos, mas não condena ataques contra mulheres

Ex-primeira-dama está, sim, alvejando o nome indicado pelo marido

O Brasil continuará a ter os olhos voltados para o Mundial. Mas no país evangélico a disputa entre Michelle e Flávio Bolsonaro continua. O senador saiu por cima do incidente dos vídeos, mas os dois parecem dispostos a sacrificar 2026 pela liderança do PL em 2030.

Para quem não acompanhou essa partida de xadrez eleitoral: na quarta-feira (23), quando o país se acomodava no sofá para assistir à partida entre Brasil e Escócia, a ex-primeira-dama publicou dois vídeos criticando o enteado e dizendo ser ele quem abdicou do apoio dela.

A resposta da pré-campanha de Flávio foi notável do ponto de vista da comunicação e da coordenação. Primeiro, publicou um vídeo defendendo que o momento era de apoiar a seleção. Ganhou tempo. Na quinta-feira (24), sua resposta foi curta e precisa.

Na peça, o senador apresentou a sua relação com as filhas e a esposa para anular a imagem de grosseiro com mulheres. Fez um gesto de grandeza, pedindo desculpas ao desafeto, e reconheceu a importância de Michelle como liderança feminina no partido e os sacrifícios que ela faz para cuidar de Jair. E, com um drible inesperado, passou para o ataque.

Flávio inverteu as expectativas ao anunciar um encontro com mulheres em Brasília, na próxima quarta-feira (1°), e convidou Michelle a participar. São esperadas as senadoras Tereza Cristina (PP-MS) e Damares Alves (Republicanos-DF) e as deputadas federais Bia Kicis (PL-DF), Soraya Santos (PL-RJ) e Simone Marquetto (PP-SP), entre outras.

Entre quinta e sexta-feira passadas, ouvi interlocutoras identificadas com Michelle primeiro concordando com ela para, um dia depois, concluírem que sua "lavagem de roupa suja" ajudava a esquerda. Ela tinha se tornado, pela narrativa, a madrasta mesquinha da novela.

Michelle foi pressionada a responder pela acusação de conspirar para enfraquecer Flávio. Ainda na quinta-feira, nos stories do Instagram, reclamou de frases tiradas de contexto, negou que haja briga ou competição entre os dois e declarou que todos trabalharão juntos para derrotar a esquerda.

Michelle está, sim, alvejando o nome indicado pelo marido. Ao mesmo tempo, defende o próprio legado. Defensora da submissão feminina no casamento, ela criou diretórios do PL Mulher em todos os estados e ajudou a eleger 1.005 candidatas nas eleições municipais de 2024.

Ela e seus aliados evangélicos recebem cobranças para entrar na campanha sem contrapartidas. Não tem nem a garantia de que disputará o Senado pelo Distrito Federal ou de que os nomes que indica serão lançados pelo partido.

A tensão não vem só de Michelle. Flávio não pede para cessarem os ataques de natureza sexual feitos por aliados do irmão Eduardo. Na segunda-feira, a senadora Damares Alves foi exposta publicamente por não ter confirmado presença no evento com mulheres, segundo a revista Fórum.

O que vemos é uma disputa que mistura política e dinâmica familiar. Michelle sofre o machismo que cultiva. Mas o cálculo de ambos contempla 2030 —sem Lula na disputa e, talvez, sem Jair, cuja saúde se deteriora.

*Antropólogo e historiador, autor de 'Crentes' (Record) e 'Povo de Deus' (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais e esportes de combate

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