quinta-feira, 11 de junho de 2026

Flávio retrocede, por Merval Pereira

O Globo

Como a eleição será resolvida, ao que tudo indica, pelos “independentes”, pragmáticos como aconteceu em 2022, qualquer escorregão, de um lado ou do outro, poderá ser decisivo

A eleição está nas mãos dos “swing voters” tupiniquins. A mesma lógica que leva alguns estados americanos, como Geórgia ou Arizona, a votar às vezes nos republicanos, outras nos democratas, faz com que esse tipo de eleitor, classificado como “independente” pela Quaest, troque de voto à medida que os fatos eleitorais vão acontecendo. Aí não entram preferências ideológicas, mas outras questões, como percepção de corrupção, receio de que um partido continue no governo ou de que outro ascenda ao Palácio do Planalto. No caso atual, há os dois fatores em jogo: Lula ir para o quarto mandato, ou Bolsonaro voltar à presidência por intermédio de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro.

Os “independentes” não encontraram, até o momento, nenhum substituto aos dois líderes das pesquisas, embora o presidente que busca a reeleição tenha conseguido uma vantagem fora da margem de erro devido ao caso do financiamento do filme sobre Bolsonaro pai. O cheiro de corrupção exalado do áudio da conversa entre Vorcaro e Flávio não passou despercebido a um grupo de eleitores mais sensíveis, mesmo que, no lado adversário, também haja histórico de corrupção. Provavelmente este será o ponto mais delicado desta campanha e abaixará o nível dos debates: quem é o mais ladrão?

O grupo bolsonarista sempre usou esse termo para classificar Lula, relembrando os casos do mensalão e, sobretudo, da Operação Lava-Jato, que levou Lula à cadeia. O contra-ataque também tem munição anterior ao caso do filme financiado por Vorcaro. As rachadinhas, as condecorações a milicianos, as ameaças à democracia e, agora, o incentivo às tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil. Para ter uma ideia de como funciona a cabeça do eleitor que decidirá essa eleição, a pesquisa mostra que ele é favorável à definição legal de facções como Comando Vermelho e PCC como grupos terroristas, mas acha que o governo brasileiro, e não o americano, deveria fazer isso.

A noção de soberania nacional foi um presente que os Bolsonaros deram a Lula a esta altura da campanha, ainda mais que as declarações do ex-deputado Eduardo Bolsonaro comparando o sistema arcaico dos Estados Unidos de transferência de dinheiro ao Pix, que incomoda o governo americano, sugiram que, uma vez a família de volta ao poder, poderia trocar nossa tecnologia pela dos Estados Unidos por pura subserviência. Não adianta agora ele tentar explicar o que pensou em dizer, pois, nas campanhas eleitorais, palavras mal colocadas podem dar chance ao adversário de deturpá-las, com ganhos nas urnas.

Está na história das campanhas a derrota do brigadeiro Eduardo Gomes em 1950 para Eurico Dutra, candidato de Getúlio Vargas. Num comício, Gomes disse que não precisava dos votos “dessa malta”, referindo-se aos eleitores varguistas. O empresário Hugo Borghi desencavou nos dicionários uma definição de “malta” como grupo de trabalhadores temporários. Daí inventou que Gomes, candidato das elites, recusava os votos do povo, dos que comem em marmitas. Não havia IA nem internet, mas as fake news já influenciavam as eleições.

Como a eleição será resolvida, ao que tudo indica, não pelos convictos petistas e antipetistas, mas pelos “independentes”, pragmáticos como aconteceu em 2022, qualquer escorregão, de um lado ou do outro, poderá ser decisivo. Parte do eleitorado de direita, que, segundo a pesquisa Quaest, abandonou Flávio, passou a indeciso. Esses podem fazer um percurso em direção a Ronaldo Caiado ou Romeu Zema. Mas podem também retornar a Flavio caso fique claro que só ele é competitivo contra Lula. É pouco provável que Lula vença no primeiro turno, como já começam a sonhar petistas mais otimistas. O jogo será disputado mais no campo digital que das outras vezes, uma vantagem para os candidatos que não têm tempo de televisão relevante.

 

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