O Globo
Como a eleição será resolvida, ao que tudo
indica, pelos “independentes”, pragmáticos como aconteceu em 2022, qualquer
escorregão, de um lado ou do outro, poderá ser decisivo
A eleição está nas mãos dos “swing voters” tupiniquins. A mesma lógica que leva alguns estados americanos, como Geórgia ou Arizona, a votar às vezes nos republicanos, outras nos democratas, faz com que esse tipo de eleitor, classificado como “independente” pela Quaest, troque de voto à medida que os fatos eleitorais vão acontecendo. Aí não entram preferências ideológicas, mas outras questões, como percepção de corrupção, receio de que um partido continue no governo ou de que outro ascenda ao Palácio do Planalto. No caso atual, há os dois fatores em jogo: Lula ir para o quarto mandato, ou Bolsonaro voltar à presidência por intermédio de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro.
Os “independentes” não encontraram, até o
momento, nenhum substituto aos dois líderes das pesquisas, embora o presidente
que busca a reeleição tenha conseguido uma vantagem fora da margem de erro
devido ao caso do financiamento do filme sobre Bolsonaro pai. O cheiro de corrupção
exalado do áudio da conversa entre Vorcaro e Flávio não passou despercebido a
um grupo de eleitores mais sensíveis, mesmo que, no lado adversário, também
haja histórico de corrupção. Provavelmente este será o ponto mais delicado
desta campanha e abaixará o nível dos debates: quem é o mais ladrão?
O grupo bolsonarista sempre usou esse termo
para classificar Lula, relembrando os casos do mensalão e, sobretudo, da
Operação Lava-Jato, que levou Lula à cadeia. O contra-ataque também tem munição
anterior ao caso do filme financiado por Vorcaro. As rachadinhas, as
condecorações a milicianos, as ameaças à democracia e, agora, o incentivo às
tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil. Para ter uma ideia de como
funciona a cabeça do eleitor que decidirá essa eleição, a pesquisa mostra que
ele é favorável à definição legal de facções como Comando Vermelho e PCC como
grupos terroristas, mas acha que o governo brasileiro, e não o americano,
deveria fazer isso.
A noção de soberania nacional foi um presente
que os Bolsonaros deram a Lula a esta altura da campanha, ainda mais que as
declarações do ex-deputado Eduardo Bolsonaro comparando o sistema arcaico dos
Estados Unidos de transferência de dinheiro ao Pix, que incomoda o governo
americano, sugiram que, uma vez a família de volta ao poder, poderia trocar
nossa tecnologia pela dos Estados Unidos por pura subserviência. Não adianta
agora ele tentar explicar o que pensou em dizer, pois, nas campanhas
eleitorais, palavras mal colocadas podem dar chance ao adversário de
deturpá-las, com ganhos nas urnas.
Está na história das campanhas a derrota do
brigadeiro Eduardo Gomes em 1950 para Eurico Dutra, candidato de Getúlio
Vargas. Num comício, Gomes disse que não precisava dos votos “dessa malta”,
referindo-se aos eleitores varguistas. O empresário Hugo Borghi desencavou nos
dicionários uma definição de “malta” como grupo de trabalhadores temporários.
Daí inventou que Gomes, candidato das elites, recusava os votos do povo, dos
que comem em marmitas. Não havia IA nem internet, mas as fake news já
influenciavam as eleições.
Como a eleição será resolvida, ao que tudo
indica, não pelos convictos petistas e antipetistas, mas pelos “independentes”,
pragmáticos como aconteceu em 2022, qualquer escorregão, de um lado ou do
outro, poderá ser decisivo. Parte do eleitorado de direita, que, segundo a
pesquisa Quaest, abandonou Flávio, passou a indeciso. Esses podem fazer um
percurso em direção a Ronaldo Caiado ou Romeu Zema. Mas podem também retornar a
Flavio caso fique claro que só ele é competitivo contra Lula. É pouco provável
que Lula vença no primeiro turno, como já começam a sonhar petistas mais
otimistas. O jogo será disputado mais no campo digital que das outras vezes,
uma vantagem para os candidatos que não têm tempo de televisão relevante.

Um comentário:
Por enquanto,ninguém sabe quem vai ganhar.
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