O Globo
Entrevista de Gilmar escancara divisão na
corte e tensão provocada pelo caso Master
Há pouco menos de 20 dias, escrevi
neste espaço que as tensões no Supremo Tribunal Federal (STF) estavam
prestes a deixar os bastidores e explodir em público. Não demorou. Em
entrevista ao “Roda Viva”, o decano da Corte, Gilmar Mendes, explicitou a
divisão interna na Corte e deixou claro quem joga em que time.
No seu, estão Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Dias Toffoli e, mais discretamente, Cristiano Zanin. Os demais se dividem em dois grupos que foram alvo de ataques de Gilmar. Ao presidente, Edson Fachin, e a Cármen Lúcia, ele atribui o desgaste de imagem do STF, pela insistência em agendas como o código de conduta do Judiciário. O maior incômodo, no entanto, parece recair sobre André Mendonça, que claramente vem ganhando protagonismo no Supremo com relatorias de casos espinhosos e de alto impacto político, como o Master e o da máfia do INSS.
O fato de Mendonça ter aglutinado maioria na
Segunda Turma parece não ter sido bem digerido pelo decano, e o antagonismo
agora foi explicitado em rede nacional. A declaração mais explosiva de Gilmar
foi quanto aos “erros crassos” que atribuiu ao colega na condução do caso
Master. Ele acusou Mendonça de ter tentado interferir nos termos da negociação
de delação premiada de Daniel Vorcaro e chegou a insinuar que ela poderia
suscitar seu impedimento de continuar à frente do inquérito.
A terça-feira foi de burburinho entre
advogados e investigadores do caso. Defensores de políticos enredados na trama
do Master e de investigados presos preventivamente se dividiam quanto à
possibilidade de alegar a suspeição de Mendonça a partir da avaliação de
Gilmar, mas, no fim do dia, faltava a qualquer um deles a coragem para tomar a
iniciativa. Prevalecia a avaliação de que, como a delação não foi adiante e não
há evidências claras de que Mendonça obteve acesso prévio ao conteúdo dos
anexos ou tentou dirigir seu conteúdo, a alegação de que ele está impedido de
prosseguir na relatoria é frágil.
Existe praticamente consenso, entre quem
acompanha de perto a intrincada investigação da fraude perpetrada por Vorcaro e
a teia de acessos políticos que ele comprou, de que nenhuma delação nesse caso
será fechada até a eleição — nem no inquérito do INSS, aliás.
A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da
República adotaram, na visão desses observadores, uma postura bem mais
restritiva na negociação de propostas de acordo, e a impressão geral é que,
pela diversidade de atores políticos que podem ser atingidos pelos dois
escândalos, o mais prudente a fazer é deixar os desfechos de ambos para depois,
para que não haja influência decisiva nas urnas, em benefício de qualquer dos
lados.
É sempre uma jogada de altíssimo risco contar
com a possibilidade de controlar totalmente casos com tantos personagens, tanto
dinheiro envolvido e uma gama de interesses dessa magnitude. Mas esse parece
ser um pacto velado existente entre os nomes mais estrelados que apareceram até
aqui como beneficiários da generosidade de Vorcaro e seus sócios.
O mais difícil de conter é a guerra declarada
no STF. Os anos de protagonismo do tribunal em defesa da democracia acabaram
por gerar a hegemonia do bloco Moraes-Gilmar, que não mais subsiste. O caso
Master fragilizou justamente integrantes dessa ala, e essa parece ser uma das
razões por que o decano se levanta e critica publicamente a atuação de um
colega que, há até alguns meses, era próximo a ele.
Chama a atenção a tibieza de Fachin em se
impor diante de constantes e cada vez mais ácidas contestações públicas a sua
condução à frente do tribunal. Fingir que não leu, não viu ou não escutou as
admoestações e se manifestar sempre em tom olímpico em bancas de universidades
e simpósios não parece ser uma forma adequada de responder, para dentro e para
fora, a uma crise que, não de hoje, vai comprometendo em vários níveis a imagem
do Judiciário.

Ótimo comentário.
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