Folha de S. Paulo
Às vezes, por educação ou reflexo, apertamos
a mão de pessoas que desprezamos
No fim do ano, tive o prazer de recusar a
minha ao então governador Cláudio Castro
Num evento de fim de ano aqui no Rio, alguém me alertou para uma pessoa que acabara de adentrar o recinto: o então governador Cláudio Castro, institucionalmente convidado. Vi quando ele cruzou o salão, parando de mesa em mesa e oferecendo sua mão aos participantes de cada grupo. Todos lhe retribuíram, não sei se por educação ou reflexo. De repente, Castro —sem parentesco com o colunista— estava diante de minha mesa.
Éramos cinco, eu na quinta cadeira. Castro
estendeu a mão a cada um de meus colegas, que a apertaram com ou sem gosto.
Dali a pouco, ela estava apontada na minha direção, à espera do correspondente
gesto. Mas, com ar casual, não me mexi, apenas olhei para cima e para os lados,
e, como se ela fosse invisível, deixei sua mão suspensa no vazio. Castro,
político malandro, não passou recibo —recolheu-a e se dirigiu à mesa seguinte.
Com certeza, não era a primeira vez que lhe acontecia. Mas era a minha primeira,
e com que prazer.
Já apertei mãos ilustres —Guimarães Rosa,
Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Pelé, Carlos Drummond, Nelson Rodrigues,
Kim Novak, James Stewart, Tony Bennett, Tom Jobim, Juscelino, Tônia Carrero, Di
Cavalcanti— e, com a maioria deles, troquei mais de duas palavras. Apertei mãos
menos dignas também, ou pelo dito reflexo ou por não poder fugir. Desta vez,
tive tempo para premeditar a ofensa. Não foi preciso encarar Castro ou
desacatá-lo. A indiferença já era suficiente.
Cláudio Castro, oriundo de Santos (SP) e sem
vida política no Rio, é um dos nossos ex-governadores que, com justiça, se viram às
voltas com a lei. Seu antecessor foi o também repelente Wilson
Witzel, oriundo de Jundiaí (SP) e também desconhecido do eleitor fluminense.
Antes deles, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz
Fernando Pezão igualmente nos envergonharam.
Sim, é um recorde vergonhoso para um estado. Não sei como são as coisas nos demais. Mas, no Rio de Janeiro, é bom saber que nossos corruptos são investigados, julgados, condenados e, às vezes, presos.

Cláudio Castro aprontou demais,mas eu jamais faria o que o colunista fez.Eu apontaria vários defeitos dos ''ilustres'' que ele citou - Somos todos espíritos em processo evolutivo,ninguém aqui está pronto.Fui.
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