sábado, 27 de junho de 2026

Michelle Bolsonaro e o peso do voto feminino, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Preterida em muitas decisões, a ex-primeira-dama tem encontrado dificuldades para emplacar os nomes ao senado construídos a partir da mobilização do PL Mulher. No Ceará, essa dificuldade é bastante visível: o nome de Priscila Costa, preferido de Michelle, disputa com Alcides Fernandes o espaço na chapa

Tenho insistido na importância estratégica de Michelle Bolsonaro nas eleições presidenciais deste ano. Ao contrário dos filhos do ex-presidente, a ex-primeira-dama foi capaz de construir uma imagem pública consistente, justamente pela coerência entre suas movimentações e o discurso conservador que o bolsonarismo proclama. Menos pragmática e mais ideológica, Michelle tem sido capaz de manter um capital político valioso em uma eleição que será decidida voto a voto.

O vídeo publicado em suas redes sociais poucas horas antes do último jogo do Brasil prova que a ex-primeira-dama não só tem muita consciência de seu papel, como está disposta a disputar publicamente a liderança da extrema-direita. A peça, preparada com cuidado, mostra uma Michelle magoada com o tratamento reservado a ela pelos enteados, e expõe o racha interno que marca o movimento bolsonarista desde que Jair Bolsonaro foi preso e se retirou da cena pública.

A política que se manifesta no vídeo não é uma ativista inflamada e descompensada, tampouco encarna um ar de domesticidade de esposa. Com uma caneta na mão, voz pausada e um mapa do PL Mulher sobre a mesa, Michelle mostra um extremo conforto ao personificar uma imagem de força, fazendo questão de indicar que há um trabalho de articulação em curso, com foco no eleitorado feminino evangélico e na construção de candidaturas de mulheres nos diferentes estados.

Esse é um ponto da crise. Preterida em muitas decisões, a ex-primeira-dama tem encontrado dificuldades para emplacar os nomes ao senado construídos a partir da mobilização do PL Mulher. No Ceará, essa dificuldade é bastante visível: o nome de Priscila Costa, preferido de Michelle, disputa com Alcides Fernandes o espaço na chapa. Todo o grupo alinhado a Ciro Gomes insiste no nome de Fernandes, enquanto Michelle mostra rejeição não só ao candidato ao senado como ao próprio Ciro, que foi detalhadamente citado do vídeo.

A análise política mais especializada continua a subestimar Michelle Bolsonaro, insistindo no seu papel marginal ou na hipótese de que ela faz parte de um jogo articulado por nomes nos bastidores do mundo evangélico e do próprio PL. Considero essa uma leitura misógina e míope. Por tudo que a ex-primeira-dama apresenta em sua performance, no seu cálculo político, na sua capacidade de mostrar força e bagunçar o tabuleiro, podemos considerá-la parte dos principais atores políticos da eleição de 2026.

Um dos estratos mais valiosos do eleitorado nacional deste ano é o das mulheres evangélicas. Sem esse voto, Flávio não se elege. Se formos atentos, notaremos que o mapa sobre a mesa de Michelle é um sinal claro de que ela, mais do que o enteado, é a líder desse campo tão precioso.

*Professora de Direito, UFCE

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