sábado, 27 de junho de 2026

O Dilema da Esquerda: Entre a Gestão do Estado e a Ascensão da Ultradireita, por Altamir Petersen*

Uma grande dúvida paira sobre a esquerda contemporânea: até que ponto o avanço da ultradireita é alimentado pela moderação excessiva dos governos progressistas e pela consequente frustração de suas bases? Uma análise político-econômica dos governos de esquerda na América Latina pós-2002 demonstra que essa hipótese causal não pode ser descartada. O fortalecimento da extrema-direita no Brasil, as oscilações políticas no Chile, Peru e Colômbia, a iminente crise do modelo cubano e a própria vulnerabilidade do chavismo bolivariano diante de pressões geopolíticas externas acendem o alerta nos grupos progressistas.

A raiz dessa crise reside no esgotamento da política de conciliação de classes. Ao contrário do que sustentam visões complacentes, o apelo popular do atual populismo de direita encontra forte respaldo nas malogradas tentativas dos governos Lula e Dilma de pactuar com as elites econômicas e políticas do país. Essa moderação reformista, longe de blindar a democracia, acabou por impulsionar o ressentimento social. Diante das tensões crescentes, os erros estratégicos e os deslizes táticos misturaram-se à agonia de governos que exerceram o poder alienados de sua missão histórica. O desencanto popular que se seguiu acabou por confundir algozes com salvadores, tornando o avanço da direita um cenário previsível.

Esse fenômeno reflete uma ironia histórica: a esquerda deixou de ser um movimento majoritariamente de base — ancorado nas ruas, nos sindicatos e na contestação sistêmica — para se integrar ao ecossistema estrutural do Estado. Ao se transformar em partidos políticos tradicionais, focados exclusivamente em vencer eleições, ocupar ministérios e articular acordos parlamentares, essas forças aceitaram as regras do jogo institucional vigente.

O resultado é que, em vez de transformar a estrutura, a esquerda tornou-se sua administradora. Passou a ditar taxas de juros, gerenciar o orçamento de forma ortodoxa, conter a inflação e priorizar a previsibilidade para os investidores privados. Ao assumir o papel de gestora de um capitalismo inerente e irrevogavelmente desigual, muitas vezes aplicando políticas de austeridade e concessões que antes combatia, ela acabou operando como uma gerente mais humanitária do próprio sistema. Distribuiu importantes avanços de bem-estar social, mas sem alterar a engrenagem que reproduz a desigualdade.

Diante disso, o debate sobre a superação dessa política de conciliação de interesses torna-se fundamental e urgente. Em um país de democracia jovem e recém-saído de uma ditadura militar, o desencanto com as instituições vigentes não permite mais à esquerda buscar a reindustrialização e o desenvolvimento nacional sem a efetiva e profunda satisfação das principais demandas populares.

*Altamir Petersen, antigo dirigente da Contag e do Incra.

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