Correio Braziliense
O cenário econômico nacional já seria
complexo por si só, não fossem dois complicadores adicionais. O primeiro são os
fatores externos, como as ações do governo Trump e a guerra no Oriente Médio. O
segundo fator é a disputa eleitoral
O boletim Focus, divulgado nessa segunda-feira, anuncia nuvens cada vez mais carregadas no cenário econômico brasileiro. Pela 13ª semana consecutiva, a mediana das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 registrou alta. Subiu de 5,09% para 5,11%, ampliando a distância em relação ao teto da meta de inflação, definido em 4,5% pelo Conselho Monetário Nacional. As projeções também são pessimistas em relação à taxa de juros. Segundo o relatório Focus, a expectativa em torno da Selic passou 13,25% para 13,50% ao ano. Até o mês passado, a estimativa era de 13% para a taxa referencial.
Mais do que a fotografia do momento, o
relatório do Banco Central indica uma tendência de que, na melhor das hipóteses,
demandará tempo para ser revertida. E esse cenário aumenta a expectativa em
relação à próxima reunião do Comitê de Política Monetária do BC, marcada para a
próxima semana. Nos dias 16 e 17, os nove integrantes do Copom decidirão se
mantêm uma redução branda da Selic — em abril, ela foi de 0,25 ponto percentual
— ou se interrompem o ciclo de baixa. Seria mais um sinal da gravidade do
momento se, após as reduções em março e abril deste ano, a autoridade monetária
desse um "cavalo de pau" e elevasse a taxa básica.
Em tom cauteloso, a última ata do Copom,
divulgada no início de maio, descrevia o perigo na próxima curva. "O
comitê estabeleceu que a magnitude e a duração do ciclo de calibração serão
determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas
às suas análises", alertou o comitê. No cálculo do Banco Central, pesam
cada vez mais as consequências do conflito no Oriente Médio, com reflexos no
preço dos combustíveis, nas cadeias produtivas, na cotação do dólar e, ao fim e
ao cabo, no bolso do consumidor.
O cenário econômico já seria complexo por si
só, não fossem dois complicadores adicionais. O primeiro são os impactos
provocados por fatores externos. A reedição do tarifaço do governo Trump, que
pode ultrapassar os 37% sobre produtos nacionais, é um alerta para as
exportações brasileiras. Em outra frente, a carne brasileira enfrenta
resistência da União Europeia. Em uma economia na qual o agro desempenha papel
fundamental, intercorrências com parceiros como Estados Unidos e União Europeia
têm impacto na agenda brasileira, ainda que o maior parceiro comercial seja a
China.
O segundo fator a desestabilizar a economia é
a disputa eleitoral. O governo Lula guarda em mãos um conjunto de indicadores
que julga positivos — taxas de desemprego historicamente baixas, valorização do
salário mínimo, isenção de IR para quem recebe até R$ 5 mil, lançamento do
Desenrola 2.0 e possível fim da jornada 6x1. O alto endividamento dos
brasileiros — 80% das famílias acumulam algum tipo de débito — e os juros exorbitantes
ainda penalizam, entretanto, os eleitores. A atual administração terá de
convencer o eleitorado de que há razões para manter o otimismo com a economia
brasileira. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, tentou abraçar essa tarefa na
semana passada, durante a reunião ministerial no Palácio do Planalto. "A
economia bateu todos os recordes. Todo trimestre tivemos recordes na economia.
No primeiro trimestre de 2026, uma vez mais, crescemos mais de 1%, crescemos
1,1%. Nós vamos de novo surpreender no segundo trimestre de 2026", previu
o chefe da equipe econômica.
Apesar da empolgação do ministro, a
instabilidade externa e o problema fiscal do governo afetarão a economia
brasileira. E, com maior ou menor profundidade, a agenda econômica entrará no
debate eleitoral. Para sorte do governo Lula, o candidato com melhor desempenho
nas pesquisas de intenção de voto, o senador Flávio Bolsonaro, têm feito
críticas genéricas à política econômica. Em alguns momentos, as acusações
chegam a ser infantis, próprias para lacrar nas redes sociais. Nos últimos
dias, por exemplo, o pré-candidato passou a responsabilizar o petista pelas
decisões comerciais do governo Trump. "Não são as empresas brasileiras que
estão sendo tarifadas. Quem está sendo tarifado é o presidente Lula: é ele e o
seu comportamento, são as suas ameaças aos Estados Unidos e o seu sentimento
antiamericano". Como se vê, há pouco de economia e muito de eleição nas
críticas de Flávio Bolsonaro. O risco, real e concreto, é que os aliados no
governo Trump levem adiante essa visão ideológica e efetivamente apliquem
sanções aos produtores brasileiros.
Em relação ao problema fiscal, tende a ser
difícil assistir a uma discussão qualificada nos próximos meses. Candidatos da
direita certamente criticarão uma suposta gastança do governo do PT. Mas alguns
pré-candidatos estão em posição vulnerável. Flávio Bolsonaro terá de explicar,
por exemplo, falhas gritantes na gestão de seu pai, que deixou de pagar
precatórios durante o mandato. O ex-governador Romeu Zema também está em
situação complicada, pois o estado que administrou por oito anos está entre os
principais devedores da União.
O momento econômico no país é sério e exige cautela e responsabilidade. É incerto se a campanha eleitoral seguirá esse roteiro.

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