O caminho para essa apreensão profunda reside
em reconhecer que o modelo de reforma gradual implementado ao longo de cinco
governos petistas caminhou essencialmente sob o signo da contradição. O lulismo
estruturou-se por meio de uma combinação inédita de opostos: articulou
conservação e mudança, promoveu a reprodução sistêmica ao mesmo tempo em que
realizava superações parciais, e transitou permanentemente entre a decepção da
ortodoxia política e a manutenção da esperança popular. Dominar essa dimensão
contraditória é o passo indispensável para que a esquerda latino-americana
possa extrair lições reais e avançar programaticamente.
O lulismo é definido como um modelo de reformismo
gradual e conciliação de classes. Sua engrenagem principal consiste em reduzir
a miséria extrema da população historicamente excluída sem enfrentar
diretamente os privilégios econômicos das elites financeiras e da burguesia.
O marco dessa dinâmica foi a eleição de 2006, que operou um grande realinhamento político no Brasil ao desconectar o "subproletariado" (a massa de trabalhadores informais e precarizados) da influência das classes dominantes e da classe média tradicional, transformando essa massa na base fiel do projeto lulista.
A Ideologia do subproletariado: ordem e
progresso social
O lulismo deslocou o debate político do eixo
ideológico clássico ("Direita vs. Esquerda") para uma percepção
prática de "Ricos vs. Pobres". Contudo, o próprio subproletariado
impôs um limite à radicalização: essa classe deseja um Estado forte que combata
a miséria, mas exige rigorosamente a manutenção da ordem socioeconômica e da
paz social, rejeitando conflitos abertos, e sem qualquer horizonte de revolução
social.
Essa
característica alinha o lulismo ao conceito de "revolução passiva" de
Antonio Gramsci: uma modernização conduzida de cima para baixo pelo Estado, que
inclui os marginalizados, mas esvazia a mobilização popular e preserva
interesses tradicionais (como o latifúndio e o capital especulativo).
A política econômica e o "Sonho
Rooseveltiano"
O modelo lulista é marcado por uma
contradição interna que conciliou duas forças:
Ortodoxia Macroeconômica: Sobretudo no
primeiro mandato (balizado pela "Carta ao Povo Brasileiro"),
manteve-se a feição conservadora e a estabilidade herdada dos anos 1990.
Políticas Distributivas Ativas: A partir do
segundo mandato, aproveitando o boom global de commodities, o Estado atuou
fortemente como indutor do crescimento através de um tripé de inclusão:
Massificação do Bolsa Família.
Valorização real e sistemática do salário
mínimo.
Expansão expressiva do crédito popular e
consignado.
Indicadores do Ciclo (2002–2010)
Essa combinação extraiu saldos sociais
profundos da própria dinâmica capitalista:
Desigualdade: Redução histórica e contínua do
Índice de Gini.
Desemprego: Despencou de “10,5\%” para “5,3\%”.
Crédito Doméstico: Saltou de “25\%” para “45\%”
do PIB.
Crescimento: O PIB passou de uma alta de “1,3\%”
(2003) para um recorde de “7,5\%” (2010).
Por que o lulismo não é neoliberal?
Classificar o lulismo como
"intrinsicamente neoliberal" é um erro metodológico e político.
Enquanto o neoliberalismo prega a retração do Estado e a precarização do
trabalho, o lulismo fez o oposto: expandiu o funcionalismo, investiu em
infraestrutura e transformou subproletários em trabalhadores formais amparados
por direitos.
Rotular o modelo de neoliberal gera um perigo
político para a própria esquerda: se a população beneficiada associar as
melhorias reais de sua vida (universidade, crédito, renda) ao termo
"neoliberalismo", o sistema neoliberal passará a ser visto como
palatável e positivo pelas classes populares.
Limites históricos e o caminho para a
esquerda
O "reformismo fraco" do lulismo não
foi uma traição voluntária, mas a diluição possível diante de uma correlação de
forças adversa. Esse pacto social não
eliminou as contradições do capitalismo periférico e mostrou limites
estruturais evidentes.
Para superar o imobilismo de uma crítica
puramente retórica ou a rotulagem simplista do lulismo como neoliberal, o
melhor caminho para a esquerda passa por uma estratégia dialética de
incorporação e superação. Isto é, reconhecer o lulismo não como um erro a ser
descartado, mas como uma etapa material concreta da formação social brasileira
que alterou o patamar de vida das classes populares e que, agora, serve de base
para saltos organizativos mais profundos.
O itinerário para essa construção política e
programática apoia-se em quatro pilares fundamentais:
Assumir a base material conquistada como
novo patamar de luta
O primeiro passo é compreender que a inclusão
pelo consumo, o acesso ao crédito, os programas de transferência de renda (como
o Bolsa Família) e a valorização real do salário mínimo transformaram a
fisionomia do subproletariado brasileiro. Essa massa, antes marginalizada do
mercado formal, experimentou conquistas materiais indubitáveis.
A esquerda não deve menosprezar essas
vitórias rotulando-as de "ilusão consumista". Pelo contrário, deve
utilizá-las como o novo ponto de partida: quem conquistou o direito de comer e
de consumir agora tem as condições materiais mínimas para lutar por direitos
estruturais. A fome desmobiliza; a estabilidade material básica gera a
segurança necessária para a organização política. O discurso emancipatório deve
demonstrar que a manutenção e a expansão desses direitos sociais básicos só são
historicamente viáveis se as estruturas que geram a desigualdade forem enfrentadas.
Transitar da "Inclusão pelo
Mercado" para a "Inclusão por Direitos Universais"
A grande limitação da conciliação lulista — o
chamado "reformismo fraco" — foi promover o bem-estar popular
majoritariamente por canais privados: o consumo de mercadorias, o endividamento
familiar facilitado e o acesso a serviços privados mercantilizados (como planos
de saúde populares e o ensino superior privado via ProUni).
O caminho para ir além da conciliação passiva
é politizar a contradição desse modelo. A esquerda precisa organizar a classe
trabalhadora em torno da exigência de bens públicos universais e
desmercantilizados:
Transformar o alívio da pobreza em uma rede
intransponível de seguridade social.
Lutar por um sistema de saúde (SUS) e de
educação pública que não precisem de complementos privados.
Pautar a reforma urbana, o transporte público de qualidade e a habitação como direitos, retirando-os da esfera estrita da especulação imobiliária e financeira.
Romper o silenciamento de classe através da formação e organização de Base
O arranjo do lulismo tendeu a desmobilizar os
movimentos sociais, substituindo o conflito aberto pela arbitragem
institucional e pela passividade da "revolução passiva" gramsciana.
Para que a classe trabalhadora caminhe em direção à emancipação soberana, é
indispensável reconstruir o tecido organizativo "por baixo":
Trabalho de base cotidiano: Abandonar o foco
puramente institucional e eleitoral, reocupando os territórios periféricos, os
novos ambientes do proletariado precarizado (como os trabalhadores de
aplicativos e do setor de serviços) e as associações comunitárias.
Formação política: Explicar didaticamente
como a mecânica do capitalismo periférico funciona. A população precisa
compreender que a riqueza que permitiu as melhorias sociais do passado veio do
próprio trabalho da classe, e que o limite dessa melhoria é imposto pela
barreira dos lucros do capital financeiro e do latifúndio agrário. Trata-se de
reverter a fragmentação perceptiva e consolidar uma clara identidade de classe.
Construir uma plataforma de reformas estruturais anticompanheiras de conciliação
A estratégia de "dar aos mais pobres sem
tirar dos mais ricos" esbarrou no teto fiscal e na crise de lucratividade
das elites burguesas. Para enfrentar as desigualdades estruturais de forma
soberana e democrática, a esquerda precisa unificar os movimentos populares em
torno de reformas que a conciliação historicamente evitou:
Reforma Tributária Progressiva: Superar a
tributação sobre o consumo (que penaliza os mais pobres) e focar taxativamente
sobre a renda, as grandes fortunas, as heranças e os lucros e dividendos
retidos pelo topo da pirâmide financeira.
Soberania Econômica e Reindustrialização:
Pautar o controle democrático sobre os setores estratégicos (energia,
saneamento, telecomunicações e recursos minerais) e redirecionar o fundo
público para investimentos produtivos, reduzindo a submissão do Estado à
ditadura do superávit primário e do pagamento de juros da dívida pública à
elite rentista.
Reforma Agrária Popular e Transição Ecológica: Unir a histórica pauta da terra ao enfrentamento do agronegócio predatório, fortalecendo a agricultura familiar, a soberania alimentar e modos de produção sustentáveis que protejam os biomas nacionais.
*Antigo dirigente da Contag e do Incra

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