segunda-feira, 29 de junho de 2026

O cerne do lulismo e o realinhamento eleitoral, por Altamir Peterson*

A esquerda contemporânea na América Latina enfrenta a urgência de compreender o "lulismo" em toda a sua complexidade analítica para superar as leituras dicotômicas e reducionistas que dividem e polarizam o debate político. De um lado, deve-se rejeitar a idealização apologética que enxerga o modelo apenas como um projeto redistributivo perfeito; de outro, deve-se descartar a condenação mecânica que o simplifica como mera extensão do neoliberalismo estrito.

O caminho para essa apreensão profunda reside em reconhecer que o modelo de reforma gradual implementado ao longo de cinco governos petistas caminhou essencialmente sob o signo da contradição. O lulismo estruturou-se por meio de uma combinação inédita de opostos: articulou conservação e mudança, promoveu a reprodução sistêmica ao mesmo tempo em que realizava superações parciais, e transitou permanentemente entre a decepção da ortodoxia política e a manutenção da esperança popular. Dominar essa dimensão contraditória é o passo indispensável para que a esquerda latino-americana possa extrair lições reais e avançar programaticamente.

O lulismo é definido como um modelo de reformismo gradual e conciliação de classes. Sua engrenagem principal consiste em reduzir a miséria extrema da população historicamente excluída sem enfrentar diretamente os privilégios econômicos das elites financeiras e da burguesia.

O marco dessa dinâmica foi a eleição de 2006, que operou um grande realinhamento político no Brasil ao desconectar o "subproletariado" (a massa de trabalhadores informais e precarizados) da influência das classes dominantes e da classe média tradicional, transformando essa massa na base fiel do projeto lulista.

A Ideologia do subproletariado: ordem e progresso social

O lulismo deslocou o debate político do eixo ideológico clássico ("Direita vs. Esquerda") para uma percepção prática de "Ricos vs. Pobres". Contudo, o próprio subproletariado impôs um limite à radicalização: essa classe deseja um Estado forte que combata a miséria, mas exige rigorosamente a manutenção da ordem socioeconômica e da paz social, rejeitando conflitos abertos, e sem qualquer horizonte de revolução social.

Essa característica alinha o lulismo ao conceito de "revolução passiva" de Antonio Gramsci: uma modernização conduzida de cima para baixo pelo Estado, que inclui os marginalizados, mas esvazia a mobilização popular e preserva interesses tradicionais (como o latifúndio e o capital especulativo).

A política econômica e o "Sonho Rooseveltiano"

O modelo lulista é marcado por uma contradição interna que conciliou duas forças:

Ortodoxia Macroeconômica: Sobretudo no primeiro mandato (balizado pela "Carta ao Povo Brasileiro"), manteve-se a feição conservadora e a estabilidade herdada dos anos 1990.

Políticas Distributivas Ativas: A partir do segundo mandato, aproveitando o boom global de commodities, o Estado atuou fortemente como indutor do crescimento através de um tripé de inclusão:

Massificação do Bolsa Família.

Valorização real e sistemática do salário mínimo.

Expansão expressiva do crédito popular e consignado.

Indicadores do Ciclo (2002–2010)

Essa combinação extraiu saldos sociais profundos da própria dinâmica capitalista:

Desigualdade: Redução histórica e contínua do Índice de Gini.

Desemprego: Despencou de “10,5\%” para “5,3\%”.

Crédito Doméstico: Saltou de “25\%” para “45\%” do PIB.

Crescimento: O PIB passou de uma alta de “1,3\%” (2003) para um recorde de “7,5\%” (2010).

Por que o lulismo não é neoliberal?

Classificar o lulismo como "intrinsicamente neoliberal" é um erro metodológico e político. Enquanto o neoliberalismo prega a retração do Estado e a precarização do trabalho, o lulismo fez o oposto: expandiu o funcionalismo, investiu em infraestrutura e transformou subproletários em trabalhadores formais amparados por direitos.

Rotular o modelo de neoliberal gera um perigo político para a própria esquerda: se a população beneficiada associar as melhorias reais de sua vida (universidade, crédito, renda) ao termo "neoliberalismo", o sistema neoliberal passará a ser visto como palatável e positivo pelas classes populares.

Limites históricos e o caminho para a esquerda

O "reformismo fraco" do lulismo não foi uma traição voluntária, mas a diluição possível diante de uma correlação de forças adversa.  Esse pacto social não eliminou as contradições do capitalismo periférico e mostrou limites estruturais evidentes.

Para superar o imobilismo de uma crítica puramente retórica ou a rotulagem simplista do lulismo como neoliberal, o melhor caminho para a esquerda passa por uma estratégia dialética de incorporação e superação. Isto é, reconhecer o lulismo não como um erro a ser descartado, mas como uma etapa material concreta da formação social brasileira que alterou o patamar de vida das classes populares e que, agora, serve de base para saltos organizativos mais profundos.

O itinerário para essa construção política e programática apoia-se em quatro pilares fundamentais:

Assumir a base material conquistada como novo patamar de luta

O primeiro passo é compreender que a inclusão pelo consumo, o acesso ao crédito, os programas de transferência de renda (como o Bolsa Família) e a valorização real do salário mínimo transformaram a fisionomia do subproletariado brasileiro. Essa massa, antes marginalizada do mercado formal, experimentou conquistas materiais indubitáveis.

A esquerda não deve menosprezar essas vitórias rotulando-as de "ilusão consumista". Pelo contrário, deve utilizá-las como o novo ponto de partida: quem conquistou o direito de comer e de consumir agora tem as condições materiais mínimas para lutar por direitos estruturais. A fome desmobiliza; a estabilidade material básica gera a segurança necessária para a organização política. O discurso emancipatório deve demonstrar que a manutenção e a expansão desses direitos sociais básicos só são historicamente viáveis se as estruturas que geram a desigualdade forem enfrentadas.

Transitar da "Inclusão pelo Mercado" para a "Inclusão por Direitos Universais"

A grande limitação da conciliação lulista — o chamado "reformismo fraco" — foi promover o bem-estar popular majoritariamente por canais privados: o consumo de mercadorias, o endividamento familiar facilitado e o acesso a serviços privados mercantilizados (como planos de saúde populares e o ensino superior privado via ProUni).

O caminho para ir além da conciliação passiva é politizar a contradição desse modelo. A esquerda precisa organizar a classe trabalhadora em torno da exigência de bens públicos universais e desmercantilizados:

Transformar o alívio da pobreza em uma rede intransponível de seguridade social.

Lutar por um sistema de saúde (SUS) e de educação pública que não precisem de complementos privados.

Pautar a reforma urbana, o transporte público de qualidade e a habitação como direitos, retirando-os da esfera estrita da especulação imobiliária e financeira.

Romper o silenciamento de classe através da formação e organização de Base

O arranjo do lulismo tendeu a desmobilizar os movimentos sociais, substituindo o conflito aberto pela arbitragem institucional e pela passividade da "revolução passiva" gramsciana. Para que a classe trabalhadora caminhe em direção à emancipação soberana, é indispensável reconstruir o tecido organizativo "por baixo":

Trabalho de base cotidiano: Abandonar o foco puramente institucional e eleitoral, reocupando os territórios periféricos, os novos ambientes do proletariado precarizado (como os trabalhadores de aplicativos e do setor de serviços) e as associações comunitárias.

Formação política: Explicar didaticamente como a mecânica do capitalismo periférico funciona. A população precisa compreender que a riqueza que permitiu as melhorias sociais do passado veio do próprio trabalho da classe, e que o limite dessa melhoria é imposto pela barreira dos lucros do capital financeiro e do latifúndio agrário. Trata-se de reverter a fragmentação perceptiva e consolidar uma clara identidade de classe.

Construir uma plataforma de reformas estruturais anticompanheiras de conciliação

A estratégia de "dar aos mais pobres sem tirar dos mais ricos" esbarrou no teto fiscal e na crise de lucratividade das elites burguesas. Para enfrentar as desigualdades estruturais de forma soberana e democrática, a esquerda precisa unificar os movimentos populares em torno de reformas que a conciliação historicamente evitou:

Reforma Tributária Progressiva: Superar a tributação sobre o consumo (que penaliza os mais pobres) e focar taxativamente sobre a renda, as grandes fortunas, as heranças e os lucros e dividendos retidos pelo topo da pirâmide financeira.

Soberania Econômica e Reindustrialização: Pautar o controle democrático sobre os setores estratégicos (energia, saneamento, telecomunicações e recursos minerais) e redirecionar o fundo público para investimentos produtivos, reduzindo a submissão do Estado à ditadura do superávit primário e do pagamento de juros da dívida pública à elite rentista.

Reforma Agrária Popular e Transição Ecológica: Unir a histórica pauta da terra ao enfrentamento do agronegócio predatório, fortalecendo a agricultura familiar, a soberania alimentar e modos de produção sustentáveis que protejam os biomas nacionais.

*Antigo dirigente da Contag e do Incra

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