Folha de S. Paulo
Discussão sobre últimos avanços da IA se
torna pop e tema político-eleitoral nos EUA
Por aqui, juros altos eternos ameaçam
sobrevivência de empresas, que dirá alguma inovação
O mundo corre, o Brasil atola. Por um lado,
temos problema tão bárbaro quanto o dos americanos, que lidam com o
"duce" da corrupção geral dos costumes, da democracia e do que resta
de civilização, Donald Trump.
Por aqui, uma versão moleque, corrupta e mais caricata do "duce" quer
o poder em 2027.
Até problemas com juros nos afligem no mesmo momento, embora no Brasil se trate da perspectiva de longo atoleiro, com asfixia de empresas, investimento e crescimento baixo por muitos anos. Não dá para pensar nem mesmo em adoção de inovação, que dirá inovar.
Trump encarna degradações da vida social ou
política. Mas por meio dele poderes econômicos e políticos dos EUA também
expressam e fazem valer seus interesses, não importa se instrumentos tortos ou
francamente monstruosos. Trump está no meio da conversa da revolução
tecnológica, das novas intervenções estatais e da guerra contra a China.
Nas últimas semanas, tornou-se
definitivamente "pop" a discussão da possibilidade de a inteligência
artificial projetar e treinar
o seu aperfeiçoamento, de modo sucessivo, sem intervenção humana —teórica
ou fantasticamente capaz de escapar do controle humano. No caso, se discute um
processo chamado "autoaperfeiçoamento recursivo" (RSI, na sigla em
inglês).
A Anthropic, que faz os Claude, propôs
nesta semana um freio nos avanços da IA a fim de que se discuta o
risco de segurança e dos problemas
sociais causados pela mudança tecnológica veloz. Seria uma espécie de
tratado multilateral de não-proliferação de armas tecnológicas de destruição em
massa.
A proposta da Anthropic parece quixotesca.
Foi criticada não apenas por teóricos, concorrentes ou capitalistas com
dinheiro grosso em jogo. A empresa está na ponta do desenvolvimento rapidíssimo
da IA e, como tantas gigantes do setor, pretende
em breve abrir o capital. As duas iniciativas seriam contraditórias, pois.
O que quer na verdade uma empresa que propõe
esse debate e vai levantar mais capital? Isto é, que quer mais dinheiro de quem
quer ganhar mais dinheiro (sic) investindo em uma líder tecnológica? A
Anthropic se vende como companhia socialmente responsável. Trump a chama de
"esquerdista" (brigou com o governo por causa do uso militar de suas
tecnologias).
Pensadores líderes da IA, alguns responsáveis
por grandes inovações, duvidam
da possibilidade da IA com RSI. Haveria limites matemáticos, lógicos, de
engenharia, de computação ou de energia. Para outros, por marketing ou crença
firme, a IA
que se auto-aperfeiçoa chega em 2028. É discussão esotérica. Seja como
for, ainda em 2019 pensadores sérios de IA diziam que seria difícil criar
aplicações que passaram a estar ao alcance de qualquer um a partir de 2022 como
os GPTs e Claudes (a tecnologia de
base estava lançada já em 2017).
O medo da IA se dissemina nos EUA. Tornou-se
problema de imagem para empresas e político-eleitoral. A esquerda propõe
tributação pesada; firmas com medo da reação popular sugerem um modo de
distribuir ganhos. Na sexta (5), Trump disse que o governo
pode vir a ter participação no capital de empresas de IA, de modo que o
povo seja sócio da revolução.
Por aqui, não conseguimos fazer fábrica de
fertilizante ou, na verdade, de qualquer coisa, por causa de juros letais,
regulação e infraestrutura ruins, energia cara e descaso com a ciência. Nossos
assuntos maiores são o rachadão e a crise macroeconômica rudimentar. E um monte
de irrelevâncias.
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