Folha de S. Paulo
Classificar PCC e CV como organizações
terroristas é decisão política, não técnica
O que se quer mesmo é desmoralizar a
soberania jurídica brasileira
Não são terroristas as duas maiores organizações criminosas nacionais sancionadas pelo governo norte-americano. Não por lhes faltarem motivações ideológicas ou religiosas, como se vem apontando. O terrorismo internacional que derrubou as torres gêmeas nos EUA, explode bombas em lugares públicos e incita à autoimolação de fanáticos tem uma singularidade: não negocia. Ou seja, não é político-ideológico. Nem espiritual, pois seu apelo ao divino é mero rótulo para a vingança. Terrorismo é guerra civil permanente de desterrados.
Terror é um sentimento de pavor ou de
ansiedade extrema, geralmente causado por violência ou
ameaças. É uma forma radicalizada do medo, que excede a capacidade de controle
e paralisa os mecanismos de defesa do indivíduo. Não se confunde com o simples
temor, que não afeta a possibilidade de pensar e reagir. O terror emerge dos
momentos de repressão desenfreada de um regime político ou das ações movidas
pelo fanatismo, no passado e no presente. O Irgun (dissidência da Haganah,
organização paramilitar sionista), que explodiu um hotel de ingleses em 1946,
matando 91 pessoas, era terrorista. A Al-Qaeda é polo centralizador do
terrorismo árabe. Os grupos de supremacia branca nos EUA, como os Proud Boys e
a Ku Klux Klan,
são estruturalmente terroristas.
Em princípio, o Comando
Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) não têm
nada a ver com essas descrições. São máfias
voltadas para o contrabando de armas, tráfico de drogas, extorsão, lavagem de
dinheiro, assaltos, torturas e execuções. Nelas, porém, inexiste a
dinâmica de suicídio inerente às fantasias identitárias que sustentam a
mitologia de uma divindade onipotente, de um regressivo califado ou mesmo de
uma branquitude unitária. Nem a matriz vingativa que rege as necropolíticas da
extrema direita.
Vingança, uma pulsão propriamente terrorista,
responde em parte pelo que vem acontecendo nos EUA. Trump é pretexto para que
as elites brancas e os rednecks empobrecidos concretizem o seu histórico
ressentimento contra imigrantes, negros, mulheres, asiáticos e latinos. Nem
sequer as Forças Armadas norte-americanas escapam ao escrutínio
discriminatório: as promoções de oficiais de alta patente têm excluído negros e
mulheres, de modo sistemático.
O neofascismo emergente nos EUA é a face
terrorista do neoliberalismo. Compreende-se, assim, que essa dimensão velada
pelo marketing da democracia de exportação tente projetar sobre outros, por
interesses econômico-financeiros momentâneos, a pecha do terror. Essa oblíqua
classificação é decisão política, e não técnica, de um sistema imperial. O que
se quer mesmo é desmoralizar a soberania jurídica brasileira, torpedeando o
Pix, à sombra de escusos desígnios eleitorais. Combate ao crime é ambígua tela
de fundo para uma chantagem deslavada.
Colar seriamente o rótulo sancionado a
tumores sociais como PCC e CV (que os governos nacionais, sim,
irresponsavelmente, deixaram crescer) implicaria auscultar a urbanidade
periférica, cujo cotidiano oscila entre o medo e o terror impostos por essas
facções. Ou seja, escutar politicamente a voz das comunidades submetidas.
Terrorismo, se há, é só para os desamparados: são vidas paralisadas pela
ditadura do crime.
*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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