O Globo
Sendo ou não o chefão, Vorcaro terá de
assumir esse papel, ou designar o chefão por trás dele, para que sua delação
premiada seja homologada.
Tudo indica que o caso Master provocará no terreno fértil da política brasileira o mesmo efeito que uma chuva persistente tem numa área íngreme: levará por água abaixo, com seu protagonista visível, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, boa parte de nossas estruturas institucionais, que apenas fingem funcionar, mas na verdade servem de fachada para que o compadrio continue prevalecendo na nossa sociedade. Escrevo “protagonista visível” porque cresce a desconfiança de que Vorcaro era apenas o lobista político do grupo criminoso que provocou o maior rombo da história financeira do país.
Seu entorno era formado apenas por
integrantes dos Três Poderes, parlamentares, magistrados, autoridades
econômicas, assessores, qualquer um que estivesse disposto a se vergar ao “poder
corrosivo do dinheiro”. Mas, apesar de ter usado e abusado das artimanhas do
mundo financeiro, ele não parece ter sido a cabeça pensante do mundo dos
negócios, apenas um megalomaníaco que explorou o ponto fraco da anatomia de
muitas das nossas autoridades, o bolso. Sendo ou não o chefão, Vorcaro terá de
assumir esse papel, ou designar o chefão por trás dele, para que sua delação
premiada seja homologada.
Até o momento, ele quer ser “compreendido”
pelos policiais e promotores como vítima do sistema de poder que molda as ações
em Brasília. Se não comprasse deputados, senadores, ministros — não somente os
integrantes do governo, mas também dos tribunais superiores —, sugere nas
entrelinhas de sua delação já recusada, não conseguiria fazer negócio em Brasília.
Mesmo que muitos investigadores da Polícia Federal e integrantes do Ministério
Público estejam convencidos, pelos fatos sucessivos já abordados, que é assim
mesmo que a banda toca na capital, não estão dispostos a aceitar desculpas para
atenuar a ação de Vorcaro.
Até mesmo a boataria de que ele é apenas um
lobista de alto grau pode ter sido espalhada por ele próprio, para livrá-lo da
culpa de chefiar o esquema criminoso que assusta o país. Com o cerco se
fechando, Vorcaro daqui a pouco não terá mais condições de se beneficiar da
delação premiada, pois as investigações estão muito adiantadas graças às provas
e às indicações que os celulares dele e de sua turma deixaram pelo caminho. O
pai do ex-banqueiro não foi preso para coagi-lo a delatar alguém, mas porque
foram encontradas provas nos diálogos entre eles que mostram ser ele o
comandante do grupo de capangas que Vorcaro usava para ameaçar ou se livrar de
eventuais adversários.
Dos celulares de Vorcaro e sua turma, ou de
alguma delação premiada, sairão as comprovações de culpa de vários já presos e
mais alguns outros, ainda não surgidos. A ligação entre o financiamento do
filme sobre Jair Bolsonaro e a ONG contratada pela Prefeitura de São Paulo para
instalar Wi-Fi pela cidade, suscitada pelas investigações da Polícia Civil de
São Paulo e chancelada por um juiz, pode retirar dos Bolsonaros a desculpa de
que se tratava de dinheiro privado. Quando se sabe que o Banco Master está
envolvido no desvio do dinheiro da Previdência dos servidores públicos de
diversos estados e municípios, não é possível descartar a triangulação entre
ONGs e fundações para alimentar o esquema criminoso coordenado pelo
ex-banqueiro.
Assim como aconteceu com a Operação
Lava-Jato, também o caso Master revela as entranhas do capitalismo selvagem
brasileiro. Até agora, os acordos das elites, “com Supremo, com tudo”, têm
conseguido anular todas as investigações que envolvam seus componentes e
áulicos. Já há indícios de que movimento similar começa a ser urdido nos
bastidores, retardando mesmo a decisão de Vorcaro de abrir a boca para a PF e a
PGR, na esperança de que surja uma saída de última hora.

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