terça-feira, 2 de junho de 2026

Entre Keynes e Leão XIV, por Luiz Gonzaga Belluzzo

Valor Econômico

Entre o maior economista do século XX e Leão XIV há mais do que afinidades ocasionais

“Devemos abandonar os falsos princípios morais que nos conduziram nos últimos dois séculos. Eles colocaram as características humanas mais desagradáveis no lugar das mais elevadas virtudes. Não há nenhum país, nenhum povo que possa vislumbrar a era do tempo livre e da abundância sem um calafrio [...]. Pois fomos educados para o esforço aquisitivo e não para fruir [...]. Se avaliarmos o comportamento e as realizações das classes abastadas de hoje, as perspectivas são deprimentes [...]. Os que dispõem de rendimentos diferenciados, mas não têm deveres ou laços, falharam, em sua maioria, de forma desastrosa no encaminhamento dos problemas que lhes foram apresentados”. Assim escreveu John Maynard Keynes, em 1930, no ensaio “Possibilidades Econômicas de Nossos Netos”.

A advertência de Keynes não era apenas econômica. Era moral, histórica e civilizatória. O economista de Cambridge percebia que o capitalismo moderno havia convertido a acumulação em finalidade suprema da existência humana. As paixões menos nobres - a cobiça, o medo, a competição desenfreada, o desejo ilimitado de riqueza - deixaram de ser vícios tolerados para se transformarem em virtudes públicas. A sociedade moderna foi educada para o esforço aquisitivo, não para a fruição da vida, para a convivência comunitária ou para a realização espiritual do homem.

O papa Francisco e sua Encíclica Fratelli Tutti legaram a Leão XIV a linguagem teológica e pastoral para derrubar a inquietação que assola os espíritos cristãos ameaçados pela Inteligência Artificial. Meses após sua consagração, Francisco publicou a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Assim como as encíclicas Rerum Novarum de Leão XIII, Mater et Magistra e Pacem in Terris de João XXIII, o documento abordava as vicissitudes da vida cristã no mundo contemporâneo e denunciava a submissão da existência humana à tirania do dinheiro e à dominação impessoal dos mercados financeiros.

Publicada na segunda-feira, 25 de maio, a encíclica Magnifica Humanitas foi assinada pelo Pontífice no último dia 15 de maio, no 135º aniversário da promulgação de Rerum Novarum, de Leão XIII, o primeiro passo da Doutrina Social da Igreja. Leão XIV recebeu a herança de Leão XIII e escreveu uma encíclica social que aborda um dos principais desafios da época contemporânea: a inteligência artificial.

Dividida em cinco capítulos, Magnifica Humanitas argumenta que a tecnologia não é uma “força antagônica em relação à pessoa” (4), nem “um mal em si mesma” (9). No entanto, ela “não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”. Daí, o apelo do pontífice para “construir o bem” e “permanecer humanos”, seguindo a lógica da corresponsabilidade corajosa e da comunhão.

Vou cometer a ousadia de invocar Keynes para homenagear Leão XIV. Entre o maior economista do século XX e Leão XIV há mais do que afinidades ocasionais. Ambos rejeitam a antropologia do individualismo possessivo. Ambos compreendem que o homem é produto da história, da tradição, das instituições e da vida comunitária. Ambos percebem que o mercado não produz espontaneamente coesão moral nem justiça social. Ambos entendem que a economia, abandonada às forças cegas da acumulação monetária e, agora, submetida aos objetivos das Big Techs, dissolve os vínculos humanos e entrega a sociedade ao domínio impessoal das abstrações financeiras e das concretudes do avanço tecnológico.

O New York Times, em artigo “Desigualdade e Bigtechs”, não trepidou: “A riqueza acumulada dos titãs da tecnologia de hoje faz os Rockefeller e os Vanderbilt parecerem pitorescos. Nos últimos dois anos, 19 famílias adicionaram US$ 1,8 trilhão aos seus cofres, me disse o economista Gabriel Zucman - o que equivale ao tamanho da economia australiana. Nesse estado frágil entra a inteligência artificial. Isso ameaça piorar ainda mais a situação. Se mantida em seu curso atual, a I.A. poderia apresentar um cenário sombrio: empregos de baixa e média renda automatizados, com os que mais ganham permanecendo ilesos”.

No célebre ensaio "O fim do laissez-faire", Keynes atacou frontalmente a crença liberal segundo a qual a busca do interesse privado conduziria naturalmente ao bem-estar coletivo. “Não é uma dedução correta dos princípios da teoria econômica afirmar que o egoísmo esclarecido leva sempre ao interesse público. Nem é verdade que o autointeresse seja, em geral, esclarecido”. A crítica keynesiana atingia o núcleo moral do liberalismo econômico: a suposição de que os vícios privados seriam automaticamente transformados em virtudes públicas pelos mecanismos espontâneos do mercado.

Keynes e o papa percebem que o mercado não produz espontaneamente coesão moral nem justiça social

Os olhares do nosso tempo perderam de vista a ideia de comunidade. Jacques Le Goff observou, com razão, que no cristianismo primitivo e no judaísmo a eternidade não irrompe no tempo para suprimi-lo; ela representava, antes, a dilatação do tempo ao infinito.

Após a Encarnação, a escatologia judaico-cristã sofre uma transformação decisiva: o tempo adquire dimensão histórica. Cristo trouxe aos homens a possibilidade da salvação, mas cabe à história coletiva e individual realizar essa promessa.

Vou relembrar os ensinamentos do Sermão da Montanha:

1. Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.

2. Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

3. Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.

4. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos.

5. Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

6. Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.

7. Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.

8. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.

9. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa.

10. Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós.

Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? Para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.