Valor Econômico
Nos EUA, trabalhadores já sentem efeito de salários menores
A fragmentação do sistema financeiro global é
tema do relatório “Deepening Divides”, publicado no início de junho pelo Fórum
Econômico Mundial (WEF, em inglês) em parceria com a consultoria Oliver Wyman.
A fragmentação se traduz em tarifas, restrições a investimentos, controles de
exportação e medidas de retaliação entre países.
Para além das implicações na economia mundial, o relatório traz algumas considerações sobre o Brasil, especialmente no que trata da guerra comercial travada pelos Estados Unidos contra praticamente o mundo inteiro pela via do tarifaço e pela expansão do protecionismo.
O esforço brasileiro de se manter aberto a
parcerias comerciais e de investimento está contemplado no relatório. O texto
classifica o Brasil como país “Neutro”. O texto divide outras economias entre
“Ocidente” (EUA, UE, Canadá e Reino Unido, além dos orientais Japão, Coreia do
Sul e Austrália) e “Oriente” (China e Rússia). Índia, Indonésia, México, Taiwan
e Turquia acompanham o Brasil no bloco “Neutro”.
Neutralidade parece ser um posicionamento
bom, mas não é bem assim. Há riscos. Países neutros são mais dependentes
economicamente do comércio e, em caso de mais recrudescimento do protecionismo,
sofreriam com a perda de exportações - mesmo que a queda das importações fosse
equivalente.
O relatório aponta Índia e Brasil como as
duas economias mais sujeitas a queda no PIB em caso de maior fragmentação do
comércio e das finanças. A projeção indica que no cenário de “fragmentação
muito alta - desacoplamento total”, o grupo “Neutro” pode enfrentar uma queda
de 10,7 pontos percentuais no PIB, em contraste com um crescimento médio
mundial de 6,4 pontos em um período não especificado.
O modelo criado pelo WEF e pela consultoria
indica que, nos cenários de alta e muito alta fragmentação, países Neutros
alinhados ao Ocidente ampliariam suas trocas com o Oriente. A situação sugere
certa pressão para o Brasil para “escolher” um lado - EUA ou China -, atitude
incoerente com o comportamento histórico da diplomacia brasileira, pautada pela
autonomia e diversificação.
Há saídas, claro. Uma delas, no caso
brasileiro, é o acordo entre União Europeia e Mercosul, em implementação
provisória. Abre a perspectiva de novo dinamismo comercial, capaz de suprir
pelo menos em parte as perdas com as barreiras americanas. Diante da
fragmentação do multilateralismo, esse tipo de acordo funciona como um
antídoto, defende o relatório.
Outra oportunidade, diz o texto, está na
defesa aberta do multilateralismo e da possibilidade de trocas comerciais em
moedas locais, sem a necessidade de intermediação do dólar. São alternativas
que incomodam o governo Donald Trump, mas que podem ganhar adesões em caso de
escalada do protecionismo.
O relatório do WEF e da Oliver Wyman lembra
que o protecionismo sempre esteve presente. A diferença, agora, está na dose.
Quando Trump começou a sinalizar que adotaria tarifas para fortalecer a
economia americana, havia uma expectativa de que o golpe se restringiria aos
rivais geopolíticos e a países não alinhados. Mesmo com o ajuste das
expectativas à medida que novas declarações vinham à luz às vésperas do chamado
Dia da Libertação, a intensidade e o alcance das sobretaxas surpreendeu, diz o
texto.
Aliados e alinhados não foram poupados.
Alguns muito colaborativos com Washington, como a Índia, foram atingidos em
cheio. Sócios em acordos comerciais - Canadá e México - também não escaparam.
O principal conteúdo do relatório faz menção
ao sistema financeiro. A tese é que ele nunca foi tão interconectado e ao mesmo
tempo tão exposto a uma ruptura geopolítica.
Paradoxalmente, 2025 foi um ano de recordes
para o comércio e para o crédito bancário internacional. Remessas de divisas
tiveram seus maiores volumes da história. Os títulos do Tesouro americano em
posse de não residentes nos Estados alcançaram o pico. Do mesmo modo, a
fragmentação também chegou a níveis inéditos.
Segundo o documento, a fragmentação já está
custando à economia global entre US$ 213 bilhões e US$ 307 bilhões por ano - o
tamanho do PIB do Chile ou da Finlândia -, além de adicionar 0,2 a 0,3 ponto
percentual à inflação global.
O relatório enxerga as seguintes situações:
1) Tarifas elevadas encarecendo o comércio. As transações diminuem e se
redirecionam para rotas menos eficientes. 2) Restrições a investimentos via
barreiras regulatórias. O custo do capital aumenta e inibe investimentos
produtivos. 3) Incerteza e imprevisibilidade. Empresas não conseguem planejar
operações no exterior. A tendência é cortar investimento e empregar menos. 4) Redundância
em cadeias de suprimento. Para se proteger de eventuais falhas de
abastecimento, corporações se obrigam a manter relações com grupos de
fornecedores diferentes, de regiões distintas.
Esse conjunto resulta em 0,2 a 0,3 ponto
percentual a mais na inflação global, estima o levantamento. O texto diz que
efeitos já são visíveis nos Estados Unidos, com salários reais 0,33% menores
para trabalhadores de baixa qualificação, 0,49% mais baixos para os de
qualificação média e 0,66% inferiores na alta qualificação.
E o cenário pode piorar. O relatório alerta:
as perdas globais poderiam chegar a US$ 6,9 trilhões se a escalada persistir. O
número é maior que o PIB de praticamente todas as economias - cerca de 200
países -, com exceção de Estados Unidos e China. É o custo da desglobalização.

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